Eu gostei bastante de A Ilha Esquecida. A história começa acompanhando Jo e Raissa, duas meninas que se conhecem ainda na escola, enquanto esperam para entrar na diretoria. É uma amizade que surge rápido, e que vai crescendo junto com as duas. O filme acompanha essa relação por anos, mostrando como elas se tornam melhores amigas mesmo sendo pessoas bastante diferentes, Raíssa é muito dedicada aos estudos, focada, e Jo quer apenas viver o momento. E acho que é justamente aí que A Ilha Esquecida encontra sua melhor ideia.

Jo e Raissa não são simplesmente duas personagens que funcionam bem juntas porque o roteiro decidiu que elas seriam amigas. Existe essa diferença grande entre as duas, principalmente na maneira como encaram o futuro. Raissa está prestes a ir para os Estados Unidos, enquanto Jo precisa lidar com a sensação de que a vida que elas construíram juntas está prestes a mudar. A viagem de Raissa acaba sendo o catalisador de toda a história, porque pela primeira vez aquela amizade precisa enfrentar algo que nenhuma das duas consegue resolver apenas estando juntas.
O primeiro ato é, para mim, o melhor do filme. Gosto muito de como ele constrói essa amizade de uma forma muito natural e de fácil identificação. São pequenas coisas, momentos da infância e situações que vão mostrando como duas pessoas acabam se tornando parte da vida uma da outra. Quando o filme chega ao momento em que as duas estão prestes a se separar, a gente entende o motivo de aquilo ser tão difícil para elas. Não é simplesmente medo de ficar longe. É o medo de que uma relação que sempre pareceu eterna deixe de existir.
E aí entra a ilha. Quando Jo e Raissa atravessam o portal e chegam a Nakali, A Ilha Esquecida muda de ritmo. Visualmente, existe bastante coisa interessante acontecendo, mas em vários momentos senti que o filme estava tentando chamar minha atenção o tempo inteiro para algo diferente, os super estímulos visuais já estavam na primeira etapa, mas lá parecia tudo muito natural, quando a ilha surge o humor fica até besta demais, o que logo comento melhor.

Isso me incomodou um pouco porque parece uma animação pensada para nunca deixar o espectador parado. É como se qualquer segundo sem uma nova informação visual pudesse fazer alguém perder o interesse. Entendo que isso faz parte da linguagem que o filme quer construir, principalmente com essa mistura de 3D, 2D e referências de anime, mas para mim existe uma diferença entre uma animação visualmente inventiva e uma animação que está sempre pedindo para você olhar para alguma coisa. A Ilha Esquecida às vezes passa desse ponto.
Na ilha, o humor também fica um pouco mais bobo do que eu gostaria. Alguns personagens funcionam melhor do que outros (destaque para um sereio não binário) e certas piadas parecem estar ali simplesmente porque o filme precisa manter a aventura divertida, o cão Raww é um exemplo de personagem que não funcionou comigo mesmo tendo todo um arco bem importante, mas o humor dele simplesmente não me foi engraçado. Ainda assim, existe uma coisa que eu gostei bastante nessa parte: o folclore filipino não está ali apenas como decoração. Nakali é construída a partir das histórias que Jo e Raissa ouviram da nana de Jo, e as criaturas que elas encontram fazem parte dessa relação com a cultura filipina.
Isso dá ao filme uma identidade que eu gostaria até que fosse mais explorada, mas que certamente trabalha bem. O folclore não serve apenas para criar monstros diferentes ou fazer piadas com criaturas que o público provavelmente não conhece. Ele está ligado à infância das duas, às histórias que ouviram enquanto cresciam e, consequentemente, às próprias memórias que estão sendo ameaçadas pela ilha. Essa ligação fica ainda mais interessante quando o filme começa a revelar o que realmente está em jogo.

Porque, no fim, a grande ameaça de A Ilha Esquecida não é exatamente a ilha ou qualquer criatura que vive nela. São as lembranças. Jo e Raissa descobrem que voltar para casa significa abrir mão das memórias que construíram juntas, correndo o risco de simplesmente esquecer uma à outra.
E é aí que o filme fica muito mais bonito. A ideia de perder uma pessoa não porque ela morreu, não porque vocês brigaram, mas porque você simplesmente deixou de lembrar que ela existiu é muito cruel. E o filme consegue usar isso para falar de uma coisa que considero ainda mais interessante: o que acontece quando precisamos seguir em frente, mas não queremos deixar o passado para trás.
A memória acaba sendo tratada como parte fundamental da identidade das duas, afinal, quem somos nós sem nossas memórias?
Tudo aquilo que Jo e Raissa viveram juntas ajudou a formar quem elas são, então esquecer uma amizade de tantos anos significaria perder também uma parte delas mesmas. E gosto de como o filme não transforma isso simplesmente em uma história sobre “nunca esquecer”. Existe algo mais complicado ali. Algumas coisas precisam ficar no passado para que a gente consiga continuar vivendo, mas isso não significa que elas deixam de ter valor.

Foi nessa parte que eu chorei. Depois de um segundo ato que achei irregular e até bobo demais, o terceiro ato consegue voltar para aquilo que realmente fazia a história funcionar desde o começo: Jo e Raissa. A aventura, as criaturas e a ilha passam a ser consequência da relação entre elas, e não o contrário. E acho que é por isso que o final funciona tanto comigo.
No fundo, A Ilha Esquecida é um filme sobre crescer e perceber que não podemos continuar vivendo exatamente como vivíamos quando éramos crianças. Jo e Raissa cresceram juntas, mas isso não significa que as duas precisem continuar seguindo o mesmo caminho. Raissa quer ir para os Estados Unidos, Jo quer ficar, e a amizade delas precisa encontrar uma nova forma de existir. Acho que essa é uma situação muito mais real do que a aventura fantástica do filme.
Por isso, acho A Ilha Esquecida um belo acerto da DreamWorks. Não acho que o filme aproveite tudo que tem nas mãos. A animação poderia respirar mais, o humor poderia ser menos infantil em alguns momentos e eu gostaria que o conceito da memória tivesse ainda mais espaço. Porque a ideia de precisar esquecer para conseguir seguir em frente é forte demais para aparecer apenas como o mecanismo da aventura.
Mesmo assim, quando o filme chega nesse ponto, ele consegue fazer aquilo que eu mais queria que fizesse desde o começo: me fazer pensar na amizade das duas, e não apenas na aventura que elas estão vivendo. E talvez seja justamente por isso que, apesar dos problemas, eu tenha saído de A Ilha Esquecida gostando bastante dele.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.