Todo Mundo em Pânico (Crítica 2)- Quando o Velho Repudia o Novo

Primeiramente, sinto-me na obrigação de oferecer meu currículo cinematográfico quando o assunto é besteira. Eu aprecio os três primeiros filmes da franquia “Todo Mundo em Pânico”, nunca vi o 4, e do 5 passarei bem longe. Eles têm exibições frequentes na TV nos fins de noite e dezenas de vezes peguei diversas partes, deixando-me levar pela estupidez da cápsula temporal de seu senso de humor, o signo de sua era, especialmente quanto aos dois primeiros. Além do mais, você não é Brasileiro se “As Branquelas” nunca cruzou seu caminho. Não é meu filme favorito, mas é um dos evidentes pilares da nossa cultura, e novamente, passa em todos os canais e, a esse ponto, incontáveis falas estão inseridas na minha veia. Existe um leque inteiro de comédias toscas dos anos 2000 que são grandes favoritas minhas, das clássicas como “Trovão Tropical”, “Ron Burgundy”, até o esquecidíssimo no churrasco “Freddy Got Fingered”, considerado um dos piores filmes já feitos, mas pra quem vos escreve, uma obra-prima de comédia neo-surrealista, o anti-filme. Com certo pesar, o recente “Todo Mundo em Pânico” não funcionou pra mim, por uma gritante incompreensão dos artistas originais em entender os méritos cômicos de seus dois primeiros longas.

Não perderei tempo detalhando a história desse filme, não há uma, e você não se importa. Aviso que haverá descrições de eventos da conclusão mas… você liga para spoilers disso? De verdade?

Lembro-me bem de quando Marlon Wayans anunciou o retorno à franquia, com argumentos de que o filme ia ofender todo mundo, que era muito politicamente incorreto, blá-blá-blá. Nada em si empolgante, ao menos dava aquela sensação old school, de volta às raízes, que hoje percebo como algo inalcançável. No lançamento do trailer, parodiando “Pânico VI”, quando A Piada é feita… qualquer resquício de hype que eu poderia ter, apagou-se como uma vela na chuva, pois gratuidade não é humor politicamente incorreto. Quando a pessoa no metrô é esfaqueada pelo Ghostface, uma mulher assistindo diz “Nossa, ele esfaqueou ela”, e a pessoa retruca “Eu sou elu/delu”. Beleza, como proceder com a cena? Meu instinto automático é a mulher assistindo soltar “Nossa, ele esfaqueou elu”, e vida que segue. A indiferença do povo no metrô em relação a um ato brutal é a graça, a mulher só corrige o pronome, e nada faz sobre. O que está no filme? UM ESCÂNDALO! A pessoa não para de gritar “elu/delu”, fica militando, e acaba esfaqueada por todos porque eles “não têm tempo e cabeça” para aprender os termos certos… Ok, deixarei isso marinando aqui, pensemos um pouco sobre, pois trata-se de um padrão.

“Ah, se você quer pensar sobre esse filme, já tá errado”… não! Toda produção artística reflete a alma de seu criador. Arte e artista são inseparáveis. Todo ato tem significado, todo ato é político, e a comédia é um excelente viés para reflexões. “As Branquelas” mesmo expõe diversos elementos sexistas e raciais da sociedade americana da época, e até satiriza o “homem negro de sucesso” sendo incluso no “mundo branco”, fetichizando-o, e “esquecendo suas origens” (tudo isso no personagem do Latrell Spencer de Terry Crews). Toda reação sua em relação a algo artístico, por mais absurdo e estúpido que seja, é válida e tem conteúdo, refletindo tanto sobre você quanto quem criou.

Beleza, caminhamos pelo marketing do filme, agora ele em si. Algumas paródias e referências a terrores recentes foram incluídas de forma orgânica na narrativa, de certo ponto de vista, igual antigamente. A estrutura do roteiro segue muito do quinto “Pânico”, com uma dose de “Halloween (2018)”, porém logo no início quando personagens estão num parque de diversão, há piadas no fundo em referência a “Premonição”, assim como mais pra frente num hospital há paródia com “Sorria”, e honestamente, eu até curti a piada de “KPop Demon Hunters”. Duas sátiras de “Pecadores” são incluídas, uma funciona e se perde depois, a outra é uma porcaria que pelo amor de Deus…

A entrada de Shawn Wayans é uma rima visual direta com a abertura do clássico moderno de Ryan Coogler, com ele entrando num culto da igreja e abertamente declarando-se hétero! Contudo, logo depois ele começa a fazer “gestos bem gays” no microfone, diante de todo mundo, e eventualmente os religiosos ao redor começam a rebolar e serem gays juntos? Ok, a piada é “Gay”! Nada mais? Na real, se for meter o louco, por que não se comprometer à ideia do Shawn Wayans se fazer tão de hétero ao ponto de strippers ou prostitutas entrarem na cena, e todos na igreja, incluindo sua esposa, estarem celebrando junto com ele, mesmo sendo um absurdo? Putaria na igreja? De boa, contanto que seja hétero! Pode até concluir com ele piscando para um cara, indicando que a piada clássica continua. Quanto à segunda referência a “Pecadores”, três personagens, que conhecem os Wayans, tentam entrar numa festa dos Wayans, agindo como os vampiros do filme, até refazem o icônico “Y’all Klan?”, mas tipo… vocês se conhecem. Por isso eu não detalhei história alguma, o próprio filme se renega a seguir uma linha narrativa. Não há trama a ser engatada, apenas uma série de esquetes baratas, sem um resquício de criatividade, fazendo referência àquele filme ou tal outro, e o longa que você está assistindo reseta toda vez. Nem “Freddy Got Fingered” faz isso! Acredite, não há filme que se renegue tanto a ser um quando este que permaneço mencionando, mas esse sexto “Todo Mundo em Pânico” se recusa a muito mais. Pois este projeto tem uma tese. Ah se tem… uma mensagem direta, explícita, de peito aberto, uma declaração desesperada.

Aqui introduzo o maior mérito dos dois primeiros filmes, dirigidos por Keenen Ivory Wayans. A graça nunca esteve no politicamente incorreto, ou fazer piadas às custas de alguma minoria, mas sim na alegre estupidez ali presente, e mais importante, na juventude de seus artistas. Aquilo era um bando de maconheiro na casa dos 20 anos tentando fazer o outro rir, lutando por um espaço no holofote de Hollywood. O que mais existia era boomer reclamando desses filmes (e.g. os críticos da época), como pueris e vazios, desmerecendo o senso de humor, a visão, de uma nova geração. Esse ciclo é uma constante histórica, você pode achar que Scorsese e Coppola sempre foram amados e considerados geniais, mas a Nova Hollywood também teve de conquistar seu espaço com os astros das Eras de Ouro e Prata, muitos trabalhos da época eram desmerecidos, vistos como ingênuos, modismo passageiro. Se houvesse Twitter nos anos 70, Scorsese seria tratado igual a Zack Snyder. Enfim, ciclo estabelecido, o que isso tem a ver com “Todo Mundo em Pânico”? A tese deste filme é uma nota de repúdio à juventude.

Todos os personagens adolescentes do filme são péssimos atores, com personagens abismais, para quando os protagonistas clássicos os assassinarem… você não sinta nada. Imposto sobre eles estão os “aspectos moderninhos”, a pessoa não-binária morre no metrô, o cara trans é assassinado também, e tudo é feito como piada. Assim, quando você faz uma piada de um homem preto ser chibatado ou linchado, hoje em dia é passável e até criativa, pois faz muito tempo que isso ocorria, e mais importante, os criativos por trás do filme são majoritariamente negros, “lugar de fala”. A comunidade LGBTQIAPN+ é vítima de violência e desumanização atual e diariamente, então, não, fazer piada com mortes brutais a esses personagens é, sem dúvidas, imoral em todos os sentidos, além do completo oposto do que é o humor politicamente incorreto.

Vou falar aqui da série mais politicamente incorreta que já assisti, é hilária: “It’s Always Sunny in Philadelphia”. Num embate de incorreto, Sunny é um cachorro grande lutando contra uma formiguinha chamada Marlon Wayans. Aquela “edge”, a sujeira, permeia por Sunny inteira, existem vários episódios de blackface e faces de outras raças, e só isso destroça qualquer tentativa de “Todo Mundo em Pânico” nessa hipotética competição. Mas o ás na manga, o trunfo, a cartada final de Sunny é que as piadas nunca são às custas “da minoria”, pois o alvo são eles mesmos. A graça não é “blackface”, e sim “esses personagens não entendem que isso é errado”, uma constante por toda a série, que já fez piada com literalmente todo mundo (incluindo a geração atual, de modo incisivo e potente) nesses mais de vinte anos no ar, nunca deixando de progredir. A entrada de Danny DeVito na série veio de um lugar de curiosidade, descobrir o que aquela garotada achava engraçado, e fazer parte dessa evolução. Um exemplo de alguém que abraçou a nova juventude de sua época.

Então, SIM, “Todo Mundo em Pânico” tinha uma filosofia, sobre ser jovem, conquistar seu espaço, fazer suas piadas, e lutar contra o poder de quem desmerecia aquele humor por birra à geração. Quando este aqui, portando o mesmo título, renega o novo, o assassina, faz piadas às suas custas, coloca-se como superior, maioral, aquele que deve permanecer, é uma afronta imoral filosófica, pois demonstra a completa imaturidade de seus criativos de reconhecerem-se agora no posto de quem antes os diminuía. O sonho do oprimido é ser o opressor, e chegou a vez dos Wayans, demonstrando uma exímia capacidade, diferentes de seus contemporâneos Charlie Day, Glenn Howerton e Rob McElhenney em Always Sunny, de se recusarem a crescer. Fazer “Todo Mundo em Pânico” aos vinte anos em 2000 é legal, fazer aos cinquenta em 2026 é CRINGE !

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