As 10 Vantagens de Morrer Depois de Você (2026) Crítica- Uma bonita mensagem sobre a vida

Em As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você, acompanhamos Gabi (Any Gabrielly), uma garota tímida e insegura que sempre teve dificuldade de sair da própria zona de conforto, e Júlia (Giulia Be), sua melhor amiga desde a infância, que é praticamente o oposto disso. Enquanto uma prefere a segurança daquilo que já conhece, a outra parece disposta a experimentar tudo o que a vida tem a oferecer. Essa dinâmica muda drasticamente quando Júlia sofre um acidente de carro e morre, deixando dez cartas para Gabi, cada uma com um desafio que a incentiva a enfrentar seus medos, experimentar coisas novas e, aos poucos, encontrar uma maneira de continuar vivendo sem a pessoa que sempre esteve ao seu lado.

Acho bonita a maneira como o filme trabalha a ideia de que superar o luto não significa esquecer quem se foi, muito menos deixar de sentir saudade. Gabi não precisa abandonar a amizade com Júlia para poder seguir em frente, mas aprender a conviver com a ausência dela e entender que ainda existe muita coisa pela qual vale a pena viver. É um processo difícil, que não se resolve de uma hora para outra, mas que vai ganhando novos significados conforme ela se permite conhecer pessoas, experimentar situações que antes evitaria e descobrir partes de si mesma que talvez nunca tivesse explorado, graças aos desafios da amiga.

Existe uma mensagem bastante bonita nisso tudo, especialmente quando pensamos em como, às vezes, ficamos tão preocupados com aquilo que ainda não conseguimos fazer que esquecemos de aproveitar as coisas que já temos. O filme encontra espaço para falar sobre os pequenos prazeres da vida, romances, as amizades que surgem inesperadamente, as experiências que nos tiram da rotina e até aqueles momentos que parecem insignificantes enquanto acontecem, mas que acabam se tornando lembranças importantes. Não acho que seja uma ideia particularmente original (esse ano mesmo tivemos o excelente As Ovelhas Detetives que fala sobre o mesmo assunto), mas isso não significa que ela não tenha valor. Algumas mensagens merecem ser revisitadas, e lembrar que a vida continua oferecendo possibilidades mesmo depois de uma perda é algo que pode fazer bem.

Ao mesmo tempo, não dá para ignorar que o longa tem dificuldades consideráveis para desenvolver essas ideias de maneira convincente. O roteiro parece ter tanta preocupação em garantir que o público compreenda a mensagem de cada cena que frequentemente deixa de lado a naturalidade das relações. Os diálogos são um dos maiores problemas nesse sentido, com personagens que parecem ter tirado suas falas diretamente de um livro de autoajuda ou de um romance adolescente particularmente ruim. Falta espontaneidade às conversas, que muitas vezes parecem existir apenas para entregar alguma reflexão sobre a vida, o amor ou a importância de superar os próprios medos. Em vez de acompanhar pessoas conversando, tenho a impressão de estar ouvindo frases que foram cuidadosamente escritas para serem sublinhadas ou postadas no Facebook.

Isso prejudica principalmente os momentos em que o filme tenta trabalhar os sentimentos de seus personagens. Por mais que a história tenha motivos suficientes para comover, algumas cenas parecem tão preocupadas em provocar uma reação específica que acabam perdendo parte da força que poderiam ter. Não é necessário que todo diálogo seja profundo ou que cada interação carregue uma lição, mas seria bom que os personagens pudessem conversar como pessoas, inclusive quando não sabem exatamente o que dizer. Afinal, diante de uma perda, nem sempre conseguimos organizar nossos sentimentos em frases tão bem construídas. Às vezes, a dificuldade de falar sobre o que estamos sentindo diz muito mais do que qualquer discurso preparado.

Também não consigo comprar a atuação de Giulia Be, que me parece bastante artificial em diversos momentos. Entendo a intenção de construir Júlia como uma garota espontânea, carismática e cheia de vontade de viver, mas a interpretação raramente encontra a naturalidade necessária para que essa personalidade funcione. Em vez de enxergar uma jovem com suas próprias contradições, frequentemente vejo uma cantora tentando interpretar uma personagem. Isso fica ainda mais evidente quando o filme depende da química entre as duas protagonistas para estabelecer a importância daquela amizade. Considerando o quanto o relacionamento entre Júlia e Gabi sustenta toda a narrativa, falta uma atuação mais convincente para que eu realmente comprasse a dinâmica proposta, e com esse núcleo principal sendo parcialmente comprometido, poderia ter dado tudo errado, que bom que fica só no poderia.

Any Gabrielly, por outro lado, está bem. Sua interpretação de Gabi funciona especialmente quando a personagem precisa demonstrar a dificuldade de voltar a se relacionar com o mundo depois da morte da melhor amiga. Existe uma insegurança que combina com a trajetória da protagonista, e a atriz consegue sustentar boa parte da história sem depender exclusivamente dos diálogos explicativos do roteiro. O problema é que, mesmo quando Any consegue dar alguma naturalidade à personagem, o filme logo parece sentir a necessidade de explicar o que ela está sentindo, como se o público não fosse capaz de compreender suas reações sem um diálogo.

Nesse processo, a amizade que Gabi desenvolve com Lorena (Pamela Germano) também merece atenção. Diferente de Júlia, Lorena apresenta outra maneira de se relacionar com o mundo e acaba oferecendo à protagonista uma companhia que não está diretamente ligada às lembranças de sua melhor amiga. Essa aproximação é interessante justamente porque mostra que o luto não acontece isoladamente e que, mesmo quando estamos tentando lidar com uma ausência, outras pessoas podem surgir e transformar a maneira como enxergamos as coisas. Gabi não precisa encontrar em Lorena uma nova Júlia, até porque nenhuma amizade deveria ter essa obrigação. O vínculo entre as duas pode existir por aquilo que elas próprias compartilham, pelas diferenças que precisam aprender a compreender e pelas experiências que passam a viver juntas.

Acho importante também pensar em como essa nova amizade participa do processo de Gabi sem funcionar como uma solução mágica para sua dor. Conhecer Lorena não faz com que a saudade desapareça, assim como as cartas deixadas por Júlia não são suficientes para resolver tudo o que a protagonista sente. O que essas experiências proporcionam é a possibilidade de Gabi voltar a se abrir para o mundo, mesmo sem ter certeza de como fazer isso. Existe diferença entre superar uma perda e simplesmente ocupar o tempo para não pensar nela, e a trajetória da personagem funciona melhor quando entendemos que ela está aprendendo a conviver com a ausência enquanto constrói novas relações. Júlia continua sendo parte de sua história, mas não precisa ser a única pessoa capaz de tornar sua vida significativa.

A narrativa encontra seu caminho mais interessante quando transforma as cartas em uma espécie de continuidade da amizade entre as duas protagonistas. Cada desafio permite que Gabi se aproxime de experiências que antes pareciam distantes, mas também faz com que ela revisite a relação com a amiga e compreenda melhor o que aquela convivência significou para ambas. Aos poucos, as cartas deixam de ser apenas uma lista de tarefas e passam a representar a possibilidade de carregar as lembranças de alguém sem precisar permanecer presa ao momento em que essa pessoa se foi. 

O filme também acerta ao não tratar a superação como uma questão exclusivamente individual. Gabi encontra outras pessoas pelo caminho, constrói novas amizades e começa a perceber que ainda pode estabelecer vínculos importantes, mesmo depois de perder alguém que considerava insubstituível. Isso não diminui o espaço que Júlia ocupa em sua vida, assim como conhecer pessoas novas não significa substituir uma amizade antiga. A relação com Lorena reforça essa ideia de maneira bastante clara, pois mostra que é possível criar novas conexões sem precisar abandonar aquelas que continuam existindo na memória. Afinal, o passado não deixa de ter importância só porque o presente começa a oferecer outras possibilidades.

No fim das contas, As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você é uma história comovente que tem o coração no lugar certo, mas que nem sempre encontra a melhor maneira de expressar aquilo que deseja dizer. Seus diálogos artificiais e a atuação de Giulia Be prejudicam uma narrativa que poderia funcionar muito melhor se confiasse mais em seus personagens e menos na necessidade de transformar cada situação em uma lição. Ainda assim, consigo reconhecer o valor da mensagem que o filme tenta transmitir. Existe algo bonito em lembrar que a saudade pode continuar existindo enquanto a gente volta a rir, conhece pessoas novas, se apaixona ou simplesmente descobre prazer em coisas que antes passavam despercebidas.

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