Considero sempre muito interessante ver como o universo do Batman pode render histórias tão diferentes dependendo do personagem que escolhemos acompanhar. Se Gotham costuma ser apresentada como uma cidade de criminosos, corrupção e decadência, me parece um ambiente muito propício para se trabalhar uma história do body horror. Cara-de-Barro, dirigido por James Watkins, abraça uma estética violenta e grotesca que, olhando apenas para um cinema mais recente, me remeteu bastante a A Substância, Coringa e Obsessão, três filmes que gosto muito, e é quase como se eles tivessem tido um filho, mas com uma identidade própria que funciona muito bem dentro do “universo batman”, mesmo que seja estranho comparado ao que vem apresentando até agora o DCU de James Gunn.

A história acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão cuja vida muda drasticamente quando ele é desfigurado por mafiosos. Na tentativa de recuperar o rosto e retomar a carreira que estava construindo, ele se submete a um tratamento experimental conduzido pela doutora Caitlin Corr (Naomi Ackie). O procedimento, porém, esconde consequências que vão muito além do aspecto físico: à medida que Hagen nutre sentimentos de raiva, o tratamento começa a apresentar falhas, ameaçando destruir a pouca normalidade que ele ainda consegue recuperar. É uma premissa que encontra no horror corporal uma maneira bastante interessante de explorar a relação entre aparência, identidade e emoções, transformando a luta de um homem para recuperar a própria vida em uma descida cada vez mais perturbadora a um ponto do qual ele pode não ter mais volta.
O que mais me interessa aqui, porém, é a maneira como o filme trabalha seu protagonista. Matt Hagen é um personagem cuja obsessão o torna alguém disposto a sacrificar praticamente tudo para conseguir aquilo que deseja. Nesse sentido, é difícil não pensar em Obsessão, especialmente na maneira como o protagonista daquele filme se deixa consumir pela própria ambição. Existe uma diferença entre querer alguma coisa e transformar esse desejo no único motivo para continuar existindo, e é justamente nesse segundo estágio que Hagen parece encontrar sua identidade.
Acho particularmente interessante quando uma história não sente a necessidade de tornar seu protagonista agradável para o público. Não precisamos concordar com suas decisões, tampouco encontrar justificativas para cada uma delas. Mas aqui o importante é que exista alguma coisa suficientemente interessante em sua trajetória para que continuemos acompanhando suas escolhas, mesmo quando elas se tornam cada vez mais difíceis de suportar. E Matt Hagen funciona muito bem justamente por isso.

Tom Rhys Harries tem aqui uma interpretação incrível como esse homem que acredita fielmente ser bom, quando na realidade está muito longe disso, ele é uma das causas da própria queda, mas é melhor e mais confortável para ele jogar a culpa exclusivamente nos outros. Sinceramente, é o tipo de atuação que merecia ser lembrada nas premiações, principalmente pela maneira como o ator consegue trabalhar as diferentes camadas de um personagem que parece estar constantemente perdendo alguma parte de si mesmo. Existe uma entrega física impressionante, mas o que realmente me chama a atenção é a capacidade de transmitir essa deterioração sem depender exclusivamente de cenas visualmente mais grotescas. Até porque, por trás de toda a monstruosidade, existe alguém consumido por uma necessidade que já deixou de fazer qualquer sentido.
Também gosto bastante da química dele com Naomi Ackie e com o restante do elenco. Em uma história tão centrada na degradação de seu protagonista, seria fácil fazer com que tudo ao redor dele parecesse existir apenas para alimentar sua transformação. A presença dos demais personagens ajuda a dar mais consistência a esse universo e faz com que as relações tenham importância para além daquilo que representam na trajetória de Hagen, especialmente o triângulo amoroso criado entre Harries, Ackie e o personagem de Max Minghella, que faz o noivo da doutora e policial de Gotham.
Outro aspecto que merece destaque é a maneira como o filme trabalha justamente elementos de terror. Existe uma diferença considerável entre utilizar violência para provocar o espectador e compreender como ela pode fazer parte da própria identidade de uma história. O gore não está ali apenas para chocar, mas para reforçar o desconforto de acompanhar alguém que está se tornando algo cada vez mais distante daquilo que era. Os efeitos práticos e digitais são impressionantes –mesmo que o cgi em uma cena bem específica envolvendo sangue seja bem incômodo– e a combinação entre os dois recursos contribui para que o horror tenha uma presença física bastante convincente.

A sequência da balada é um dos grandes destaques nesse sentido, é uma cena empolgante, cheia de violência e com ótimo uso das habilidades adquiridas pelo personagem. Cena realmente inspirada, assim como a angustiante cena do avião em que os olhos do protagonista “grudam” e ele precisa abrir eles com uma tesoura de unha… Sinceramente, é legal demais.
Visualmente, Gotham também funciona muito bem. A cidade possui uma identidade que combina com a proposta mais sombria da narrativa, sem parecer apenas uma reprodução automática daquilo que já conhecemos de outras adaptações do Batman, apesar de me remeter a visão de Matt Reeves, que inclusive, é produtor do filme. Existe espaço para explorar esse universo por caminhos diferentes, e acho que o horror é uma das possibilidades mais interessantes justamente por permitir que a cidade seja vista sob outra perspectiva. Não precisamos necessariamente acompanhar mais um confronto entre Batman e algum grande vilão para encontrar uma história interessante nesse mundo.
E talvez o que mais me agrade seja justamente a maneira como Cara-de-Barro lida com seu próprio tom. Não existem aquelas pausas cômicas inseridas após um momento sério para aliviar a tensão, tampouco a impressão de que o filme precisa interromper sua narrativa para lembrar o público de que ainda estamos assistindo a uma produção de super-heróis. A história assume sua natureza trágica e violenta, permitindo que o desconforto permaneça mesmo quando as coisas ficam particularmente grotescas.
E existe essa tendência em determinadas produções de alternar constantemente entre momentos dramáticos e piadas que parecem existir apenas para impedir que a narrativa fique séria demais. Não tenho problema com humor em filmes de super-heróis, muito pelo contrário, mas acho que cada história precisa encontrar uma linguagem que faça sentido para aquilo que pretende contar. Aqui, a ausência desse alívio cômico ajuda a preservar a atmosfera e torna a experiência consideravelmente mais envolvente.

No fim, Cara-de-Barro me parece um ótimo exemplo de como vale a pena explorar o lado adulto desse universo. Não apenas porque existe violência, sangue ou pela sua utilização impressionante do trabalho de maquiagem, mas porque o filme encontra uma maneira de utilizar esses elementos para contar uma história sobre obsessão, ambição e deterioração. É uma abordagem que permite olhar para um personagem conhecido (mesmo que não muito) dos quadrinhos por um ângulo diferente, sem depender da presença constante de figuras mais populares para justificar sua existência.
Se existe algo que gosto nesse universo, é justamente essa disposição para experimentar. Nem todo personagem precisa protagonizar uma aventura tradicional de super-herói, assim como nem toda história ambientada em Gotham precisa seguir a mesma estrutura narrativa. Às vezes, basta encontrar a abordagem certa para revelar possibilidades que sempre estiveram ali, esperando para serem exploradas. E, quando existe uma atuação como a de Tom Rhys Harries no centro de tudo, o resultado pode ser especialmente interessante. Cara-de-Barro abraça o horror, entende a tragédia de seu protagonista sem o tornar um anti-heroi e demonstra que a DC pode encontrar caminhos muito mais interessantes quando não tem medo de deixar seus personagens mergulharem na própria escuridão.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.