É bem curioso como Street Fighter entende perfeitamente a identidade visual da franquia e, ainda assim, parece não saber muito bem o que fazer com ela. Temos aqui um caso particularmente frustrante nesse sentido, porque existe uma compreensão bastante evidente daquilo que torna esse universo tão interessante, mas pouca disposição – ou competência – para transformar essa compreensão em algo realmente único.

O filme acerta em cheio na caracterização de seus personagens, na construção de sua identidade estética e na maneira como traduz elementos dos jogos para o live-action. Há um cuidado genuíno com a aparência, os figurinos e a personalidade de cada lutador (com algumas exceções), de modo que, mesmo quando algumas escolhas parecem deliberadamente exageradas, elas encontram justificativa na própria franquia. O problema é que toda essa preocupação em reproduzir a imagem de Street Fighter não encontra está lá na construção de suas lutas, elemento que deveria ser central. Justamente em um filme cuja principal razão de existir deveria ser colocar esses personagens para lutar, a ação raramente consegue demonstrar os motivos dessa franquia ser tão popular.
E não é como se faltassem possibilidades. Estamos falando de uma franquia em que cada personagem possui um estilo de combate próprio, movimentos característicos e uma identidade visual que pode ser trabalhada no cinema de inúmeras maneiras. Infelizmente boa parte da ação parece satisfeita em apresentar alguns personagens executando movimentos cheios de cortes, sem que exista uma preocupação maior em construir confrontos memoráveis. Reconhecer um golpe é legal, mas vê-lo inserido em uma luta genuinamente bem coreografada seria muito melhor. E falta um trabalho de coreografia bem melhor, a melhor cena de ação envolve a Chun-Li, a única (em live-action) que se sobressai.
O desperdício fica ainda mais evidente quando o filme coloca em cena personagens cuja presença, por si só, já deveria ser suficiente para despertar interesse, e pra mim pelo menos, desperta, estava bem empolgado para o filme. A caracterização funciona, a personalidade está ali, mas tudo parece refém de uma narrativa que não sabe explorar as próprias possibilidades. É quase como assistir a uma adaptação que passou tempo demais pensando em como seus personagens deveriam parecer e tempo de menos pensando no que eles deveriam fazer.

A utilização do torneio é, talvez, o exemplo mais representativo dessa dificuldade. Em uma franquia cujo próprio conceito oferece uma estrutura narrativa tão natural para confrontos, rivalidades e desenvolvimento de personagens, é decepcionante perceber como o filme não consegue extrair nada desse elemento. O torneio acaba mostrando apenas uma luta e meia, o que nos faz perder a possibilidade de ver vários personagens incríveis em ação, relegando eles a papéis quase nulos, como é o caso do Zangief.
Existe, ainda, uma questão de tom que prejudica bastante a experiência. O humor é uma parte compreensível de uma adaptação de Street Fighter, sobretudo porque a própria franquia nunca dependeu de seriedade para funcionar, pelo contrário, adoro a ideia de abraçarem o galhofa aqui. O problema é confundir a irreverência com preguiça. Algumas piadas não tem preocupação com timing, contexto ou criatividade. Quando o filme recorre a piadinhas de gay que parecem ultrapassadas até para os padrões de comédias de décadas atrás, a sensação não é a de estar diante de um filme debochado e consciente de si mesma, mas de uma produção que acredita que qualquer provocação é automaticamente engraçada. E adivinhem, não é.
Ainda assim, seria injusto ignorar o que funciona. Há momentos em que o filme consegue capturar a energia dos jogos e demonstrar como esse universo poderia render uma adaptação excelente. A Chun-Li, por exemplo, protagoniza justamente uma das sequências que melhor evidenciam esse potencial (que mencionei anteriormente). É uma pena que a personagem não receba uma subtrama à altura, porque existe material suficiente ali para algo muito mais interessante do que aquilo que efetivamente se desenvolve. O mesmo vale para Ken e Ryu, que acabam ocupando o centro da narrativa e se estabelecem como seus verdadeiros protagonistas. A presença deles ajuda a sustentar o filme, mas também torna mais perceptível a falta de equilíbrio na utilização dos demais personagens. Dito isso, Noah Centineo como Ken Masters é talvez o maior acerto de casting do filme, quem diria.

Falando também sobre o elenco, Callina Liang é perfeita como Chun-Li, Andrew Koji como Ryu está bem e gosto bastante das participações de Andrew Schulz e Vidyut Jammwal como Dan Hibiki e Dhalsim, respectivamente. Apesar disso, não gosto da sub-utilização de personagens como o Guile, Honda e especialmente o Zangief. No resto, Jason Momoa como Blanka é bem legal e a Mel Jarnson poderia ser a Cammy ideal, se o filme não a tornasse a personagem feminina maluquinha da vez em uma tentativa de emplacar uma nova arlequina. E por último mas não menos importante, o Bison de David Dastmalchian é estranhamente interessante, mas próximo demais da versão do Raúl Juliá.
Street Fighter não é um desastre, tampouco uma adaptação que desconhece por completo a obra que pretende adaptar. Seu problema é outro: ele demonstra entender várias das coisas que fazem a franquia funcionar, mas parece incapaz de reuni-las em um filme que funcione com a mesma eficiência. É uma produção visualmente interessante, com personagens maneiros e ideias que, quando muito bem executadas, apontam para algo consideravelmente melhor do que o resultado final, incluindo as belíssimas sequências em animação.
Talvez seja justamente por isso que a experiência seja tão frustrante para mim pelo menos. Não falta identidade, não faltam personagens e definitivamente não falta material para construir um bom filme de luta. Mas certamente faltou alguém na direção que realmente soubesse trabalhar com cinema de ação, uma pena.
Se alguém me dissesse, no começo do ano, que Mortal Kombat 2 seria melhor que Street Fighter, eu teria dado risada. Considerando o quanto eu gostaria de estar errado nessa comparação, acho que o melhor é encerrar por aqui.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.