Três anos após o lançamento de “A Morte do Demônio: A Ascensão”, o diretor Lee Cronin retorna ao terror com um projeto que poderia facilmente ser um spin-off de seu último filme. Ele repete muitas ideias visuais e conceitos, mas junto de uma trama que considero mais envolvente, ao mesmo tempo que prejudicada por algumas atuações, mas eu vou chegar lá.

No filme acompanhamos o casal Charlie e Larissa Cannon, que durante o período em que moravam em Cairo, no Egito, têm a filha Katie sequestrada. Oito anos depois, recebem a notícia de que ela foi encontrada com vida, mas a situação em que se encontra passa longe de ser comum ou tão alegre quanto gostariam.
O longa intercala tanto o núcleo parental quanto o núcleo da detetive Dalia Zaki, que pretende descobrir o que aconteceu com a menina durante o tempo que passou desaparecida, e é aí que o filme pode perder alguns espectadores, já que essa divisão de núcleos torna o filme mais longo do que se costuma ver em “filmes de terror de shopping” –termo que mencionei no meu texto de A Primeira Profecia, do qual gosto muito – são 2h14 minutos de um filme que tem um ritmo muito agradável na maior parte do tempo, mesmo que durante sua meiuca se torne um pouco repetitivo.
Os maiores destaques do elenco ficam com as filhas do casal, Katie e Maud, interpretadas respectivamente por Natalie Grace e Billie Roy. Natalie Grace interpretando essa garota que passou anos desaparecida e retorna de uma forma macabra é um espetáculo, toda a visceralidade do filme não funcionaria sem uma grande atuação por parte dela.

Infelizmente, o elenco adulto não funcionou tanto comigo, especialmente Jack Reynor, que faz o pai da família. Ele passa boa parte do filme olhando para todos os lados, meio perdido, e sinceramente não convence nem como alguém aterrorizado, nem como pai preocupado. Em um longa que exige tanto desespero, essa falta de peso acaba ficando ainda mais evidente.
O filme também entra em um campo que remete muito a “Traga Ela de Volta”, do ano passado, ao retratar questões ritualísticas, embora desenvolva esse aspecto de forma muito mais satisfatória. A lembrança vem principalmente pelo estilo de violência que ambos colocam em tela: tudo é extremo, grotesco e bastante nojento. Para quem tem estômago fraco, vai ser fácil se incomodar com várias cenas.
Existe um comentário interessante sobre até onde você iria para resgatar alguém que ama da perdição, e sobre como o mal costuma atingir justamente os pontos mais vulneráveis para desestabilizar alguém. No filme, uma criança, uma irmã, uma neta, uma filha desaparece. E essa ausência cria um vazio diferente em cada personagem, nos pais, no irmão que sente certa culpa, e o roteiro entende que o horror não nasce apenas do sobrenatural (que é sim muito presente), mas do espaço emocional deixado por quem some.

Quando Katie retorna, ela não traz apenas uma maldição consigo. Traz também de volta oito anos de culpa, um luto finalmente esvaziado, esperança mal resolvida e feridas que nunca cicatrizaram. Seu retorno abala completamente aquele núcleo familiar tão bem resolvido, é difícil de acompanhar.
Nos seus momentos de maior tensão, o filme não poupa esforços no seu excelente trabalho de maquiagem para deixar os espectadores enojados com o quão grotesco este universo pode ser, tudo é muito visceral e após o filme, você certamente vai rever o que pensa sobre pedicure, uma cena que promete e entrega muito. O design de som também é sinistro.
Existem bons sustos aqui e ali, mas não é o grande forte de seu terror, que funciona melhor quando está causando problemas familiares, toda sua violência é doentia e sangrenta na medida certa e o filme se torna uma grata surpresa positiva para os fãs de horror, não esperava muita coisa, mas eu realmente me diverti.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.