A Odisseia (2026) o épico conturbado de christopher nolan

Existe muito a se dizer sobre um filme que retrata uma das histórias mais conhecidas da humanidade: A Odisseia, que ganha uma nova adaptação para os cinemas pela visão do renomado e popular diretor Christopher Nolan, com quem compartilho opiniões bastante mistas ao longo da carreira, mas que vem do excelente Oppenheimer. Quando ele foi anunciado como responsável pelo projeto, confesso que imaginei que seu estilo talvez não combinasse tanto com a grandiosidade do romance épico de Homero. No fim da experiência, porém, o resultado acaba dialogando bastante com sua filmografia, inclusive estabelecendo paralelos interessantes com seu trabalho anterior, ainda que seja um filme muito mais inconsistente.

Que fique claro: não estarei fazendo comparações diretas com o livro nem com outras adaptações dessa história (ou de obras ambientadas no mesmo período). Este é um comentário sobre o filme pelo que ele se propõe a ser. Também não me prenderei a evitar spoilers, afinal estamos falando de uma história com cerca de três mil anos, cuja estrutura narrativa permanece bastante fiel à obra original.

Aqui acompanhamos a história de Odisseu (Matt Damon), um rei veterano da Guerra de Tróia que tenta finalmente retornar para casa após vinte anos de ausência. Enquanto isso, em Ítaca, aguardam seu retorno sua devota esposa Penélope (Anne Hathaway) e seu filho Telêmaco (Tom Holland), a quem praticamente nunca teve a oportunidade de conhecer. Acontece que, para que Ítaca volte a ter estabilidade política, cresce a pressão para que Penélope se case novamente. Seu lar, então, passa a ser dominado por pretendentes desde o fim da guerra, entre eles Antínoo (Robert Pattinson), um homem ambicioso e traiçoeiro disposto a assumir o trono a qualquer custo.

Não é exatamente a base de história mais complexa do mundo, mas o que torna A Odisseia tão singular são as jornadas pelas quais Odisseu passa nessa busca incessante pelo próprio lar. Quando o encontramos, ele já está aprisionado há anos na ilha de Calipso (Charlize Theron), que o mantém como refém e o priva de suas memórias. Até chegar ali, porém, enfrentou inúmeros desafios: o ciclope Polifemo, filho de Poseidon e devorador de homens; as sereias; Cila (que recebe aqui uma caracterização visual bastante decepcionante); a deusa Circe e diversas outras criaturas que transformam sua viagem em uma verdadeira sucessão de provações.

Gostaria de destacar desde já os momentos que mais me impressionaram. Sempre que o filme assume um tom mais próximo do horror, ele se torna muito interessante. Toda a sequência envolvendo o Ciclope é excelente, o momento em que Odisseu precisa conversar com os mortos é macabro na medida certa (com destaque para a breve, mas marcante, participação de Elliot Page como Sinon) e, principalmente, a sequência envolvendo Circe, deusa da feitiçaria que transforma homens em animais. Samantha Morton entrega, para mim, a melhor atuação do filme, em uma cena que funciona como uma metáfora extremamente eficaz sobre soldados que perderam completamente sua humanidade durante a Guerra da Tróia. Visualmente, a sequência remete bastante a A Viagem de Chihiro e, para mim, é disparado para mim o momento mais memorável de todo o longa.

E é justamente aí que reside meu maior problema com o filme. Ele é recheado desses grandes momentos isolados, mas, quando observado como um todo, parece carecer de emoção e, principalmente, de urgência. Tudo acontece de maneira muito episódica, como se cada obstáculo existisse quase de forma independente do anterior, ou até ás vezes me incomoda a distribuição de núcleos pois personagens ficam muitas vezes abandonados por tempo demais até retornarem tendo muita importância. Sendo uma história que, em teoria, deveria emocionar tanto quanto impressiona, justamente por acompanhar um homem disposto a enfrentar qualquer adversidade para reencontrar sua família, o filme nunca consegue estabelecer uma conexão emocional realmente forte. Seu ato final funciona e empolga, mas a jornada até ele parece constantemente distante. Ao final da sessão, eu estava satisfeito com o filme, mas jamais tomado pela grandiosidade ou pela emoção que um épico dessa dimensão costuma – e certamente buscava– provocar.

As cenas de ação também encontram dificuldade em suas encenações, pois tudo soa excessivamente protocolar. Imagino que exista um peso considerável no fato de este ser o primeiro filme inteiramente filmado em IMAX. Isso certamente contribui para a sensação de escala e imponência, mas também acaba se tornando uma faca de dois gumes. Por ser um equipamento extremamente grande e pouco versátil, a câmera limita bastante a movimentação, fazendo com que muitos confrontos pareçam visualmente rígidos e, por consequência, acabem soando como batalhas genéricas em larga escala, sem uma identidade muito marcante.

Valorizo, é claro, todo o trabalho de reconstrução de época, que é impressionante. O figurino é formidável e opta por uma estilização evidente em vez de um rigor histórico absoluto, algo que, para mim, nunca chega a ser um problema. A fotografia de Hoyte van Hoytema também é bastante competente, embora esteja longe de figurar entre seus melhores trabalhos. Ainda assim, tecnicamente, o aspecto que mais me impressionou foi o design de som, porque consegue transformar cada ambiente em uma experiência única. O barulho do mar, o som das criaturas e até o silêncio presente em alguns momentos de maior contemplação ajudam a construir uma sensação constante de imensidão e perigo. É um trabalho que, aliado à trilha sonora do sempre EXCEPCIONAL Ludwig Goransson, faz com que o espectador sinta a escala dessa jornada mesmo quando a direção não consegue transmitir toda a intensidade dramática que ela exige.

No elenco, vou destacar primeiramente meus favoritos: Samantha Morton, John Leguizamo, Robert Pattinson, Matt Damon e Elliot Page. Todos ótimos, mesmo que apenas os 4 personagens que citei antes no início tenham mais destaque. Sinto inclusive que pesa muito contra falta de tempo de tela para personagens tão interessantes quanto a Calipso, que deve ter quatro minutos de tela e a Athena (Zendaya), que deve ter nem dois minutos no total. Mas é justo a partir do ponto em que o grande interesse de Nolan é realmente contar a história desse homem quebrado pela guerra que quer voltar para poder viver ao lado de sua devota e amada esposa.

Tom Holland está bem mas nunca se destaca, e vale a menção para o surpreendente tempo de tela que possui Himesh Patel como Eurylochus, companheiro de embarcação de Odisseu. Outros nomes como Jon Bernthal, Benny Safdie, Lupita Nyong’o,Ryan Hurst, Mia Goth e Bill Irwin tem pouco para fazer, é um elenco MUITO vasto e cheio de nomes de peso, mas em geral, todos funcionam bem.

Inicialmente, não pensava em nem comentar as polêmicas quanto a um “boicote” que surgiu contra esse filme que parece não fazer diferença real alguma no resultado de bilheteria do mesmo, mas após ter visto o filme não tenho como deixar de falar. Acreditar que a Lupita Nyong’o como Helena de Tróia seja um motivo para não ver o filme pois prejudica a experiência a imersão histórica é de um mimimi ridículo, é uma história que tem monstros gigantes, redemoinhos no meio do mar, monstros com tentáculos, etc. Uma mulher negra na Grécia não chega aos pés de ser tão “mentiroso” quanto isso, sem contar que ela não tem 90 segundos de tela.

E antes de encerrar este texto, que já está longo demais, queria falar um pouco sobre esse diálogo de A Odisseia com Oppenheimer que mencionei no início. Apesar de serem filmes completamente diferentes em proposta, ambos parecem compartilhar um mesmo interesse de Christopher Nolan: homens consumidos pelas consequências de suas próprias escolhas. Assim como Oppenheimer acompanhava um protagonista incapaz de escapar do peso daquilo que havia criado, aqui vemos um rei cuja maior batalha já não é contra monstros ou deuses, mas contra as marcas deixadas pela guerra e pela culpa. É curioso perceber que, em meio a uma história repleta de criaturas mitológicas e acontecimentos fantásticos, Nolan demonstra muito mais interesse pelo trauma do que pela fantasia em si.

Talvez seja justamente por isso que A Odisseia funcione tanto como um filme de Christopher Nolan. Sua preocupação nunca esteve em transformar a mitologia no principal espetáculo, mas em utilizá-la para falar sobre memória, identidade, arrependimento e a dificuldade de um homem voltar a ser quem era depois de sobreviver ao horror da guerra. Ao mesmo tempo, essa escolha também explica parte das minhas ressalvas. Em diversos momentos, o filme parece tão preocupado em discutir Odisseu quanto em nos fazer sentir sua jornada, e esse desequilíbrio impede que sua dimensão épica alcance todo o impacto que poderia. Ainda assim, é uma adaptação ambiciosa, visualmente muito caprichada e que certamente renderá discussões por muito tempo. Não é o melhor filme de Christopher Nolan, tampouco a “adaptação definitiva” da obra de Homero, mas é uma leitura bastante particular de um dos maiores clássicos da literatura, uma que acerta mais quando olha para o homem por trás da lenda do que para a lenda em si.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *