
A sua experiência com o Cinema (e a Arte como um todo) é apenas tão boa quanto sua conexão emocional ao objeto, por fatores internos e externos. Existe essa imagem do crítico como alguém frio e julgador, alguns por aí certamente batem com a descrição, mas há também aqueles que são grandes amantes do que estudam, deixando-se levar por esse elo, como público, em relação a uma obra. Isto pode vir tanto dos roteiros, direção, fotografia, edição, ou pela companhia com quem assiste. Os filmes de Extermínio se tornaram “uma parada” entre mim e minha irmã. Ela, uma fã de Cillian Murphy, Danny Boyle, Jack O’Connell e Ralph Fiennes, não tem pessoa mais correta com quem ir ao cinema para este filme (e uma mais inapropriada com quem ver Avatar). Portanto, “Extermínio: O Templo dos Ossos” consegue extrair de mim cada fator possível de uma resposta emotiva, pelo coração e ousadia de sua narrativa, e também pela comunhão – um tema que acaba por ser muito relevante nessa segunda parte.
Iniciando de imediato após o final de “A Evolução”, em “O Templo dos Ossos” seguimos a jornada de Spike (Alfie Williams) ao entrar num culto satânico violento, liderado por Sir Lord Jimmy Cristal (Jack O’Connell), e simultaneamente, o papel de Ralph Fiennes, Dr. Ian Kelson, é engrandecido ao protagonismo, aprofundando-nos em sua psique e a amizade formada com o zumbi mais famoso do filme anterior, Samson (Chi Lewis-Parry). Esta síntese é capaz de ressaltar as grandes forças do projeto, assim como suas mínimas decepções e problemáticas. Há uma infelicidade em ver o protagonista inicial Spike, cheio de coração e uma das gratas surpresas do antecessor, posto sob um papel tão coadjuvante por grande parcela da trajetória. O clímax traz uma forte catarse entre ele e Kelson, mas a promessa de ver os horríveis atos do vilão e seus Dedos (como Jimmy intitula seus lacaios) pelos olhos de Spike, não é cumprida a fundo. As cenas existem, mas transparecem algo puramente reacionário, não perspectiva. Quando o garoto está em tela, ele é ofuscado pelos colegas de elenco, porém… sinal que os outros personagens são igualmente cativantes como ele na Parte 1.
A partir de agora será impossível falar de 28 Years Later sem mencionar Jack O’Connell. Se James Gunn me desse liberdade de escalar o Coringa do DCU, a resposta viria em segundos. A natureza imprevisível volátil de Jimmy proporciona cenas tensas que transcendem arrepios na pele, há um medo profundo dentre todos os personagens sobre quais ordens ele possa dar, e que ação mínima despertaria sua reação violenta. Mas há também uma fragilidade emocional (como todo bom vilão), e diversas interrogações. Seu papel na trama é um que recompensa a paciência, por boa parte da projeção me sentia perdido sobre “qual era a dele”: Ele sabe que tudo que diz é uma farsa? Ele acredita realmente ser o filho do Diabo? Há sins e nãos para essas perguntas, mas acima de todas elas, Jimmy era apenas um menino quando o apocalipse ocorreu, e viu toda sua família ser dizimada. Sir Lord Jimmy Crystal é, por trás das camadas, um órfão traumatizado tentando se manter vivo num mundo hostil, um espelho antagônico perfeito a Spike. Outro destaque importante nesse lado da narrativa é uma dos Dedos – Jimmy Ink (Erin Kellyman), alguém cuja índole permanece em dúvida até o clímax, se é aliada de Spike ou serva fiel de Jimmy, uma crente satanista ou uma sobrevivente em busca de comunidade, sendo mais um dos temas do longa, as máscaras que usamos para sobreviver, e a luta para ela não se transformar em nosso rosto.

Mas o show (beirando ao literal) é de Ralph Fiennes. Após sua marcante e emotiva presença no longa de 2025, Dr. Kelson é o coração crescente do novo capítulo, compartilhando diversas cenas com o zumbi alfa Samson, ambos formando uma peculiar doce amizade que nos aprofunda na perspectiva dos infectados que permeiam esse mundo. Há diversos momentos de música e dança, sutis e delicados, ao som de Duran Duran e Radiohead, rimas visuais quando a dupla está separada, consolidando temas de solidão, busca por comunidade, assim como Jimmy e seus Dedos. Quando ambas linhas narrativas se cruzam, a colisão é fervorosa, o suspense cresce, e mais conceitos florescem. Um embate entre Religião e Ciência, violência e gentileza, com um líder de culto brutal nomeando seus atos como “caridade”, e um solene doutor necessitando interpretar o mal encarnado para sobreviver. Aproximamo-nos de spoilers, e acreditem, vale a surpresa, assim como o desenrolar do subplot de Samson, que extraiu um profundo suspiro coletivo das poucas (emoji de choro) pessoas no cinema.
Agora com a riqueza dos personagens e temas do roteiro já estabelecidos, vamos à direção e à linguagem visual de Nia DaCosta. Há tempos ela é uma das cineastas da nova geração que mais valem ficar de olho, pois o potencial à grandeza sempre foi presente, e sua voz neste novo projeto é mais confiante e formalmente radical, com uma câmera nervosa frequente e diversos close-ups de snorricam, especialmente em Samson. Porém, quando o trabalho é comparado ao de Danny Boyle no predecessor, fica uma sensação mais cômoda. A natureza da linguagem cinematográfica de Boyle sempre foi inconstante, o maior vislumbre de seu autorismo é a possibilidade das experimentações com o digital que permeiam sua carreira pelos últimos vinte e cinco anos. Portanto, a mise-en-scene de “A Evolução” tem as mesmas qualidades de “O Templo dos Ossos”, e mais um pouco, que oferecia verdadeiramente uma abordagem nova do “fazer cinema”, pela filmagem com iPhones 15, posicionamentos de câmera inusitados, e até a catarse explorada nos momentos mais selvagens e únicos. O roteiro de Alex Garland mantém-se com uma onda de cenas jamais vistas ou repetíveis, e ainda potentes sob o olhar de DaCosta, mas sem o mesmo “soco” que Boyle oferecia, algo que pode ser até ilustrado pela câmera deste lançamento ser uma Arri Alexa, a mais comum do mercado hollywoodiano. Até mesmo nas escolhas musicais, há forças e fraquezas, contudo ainda pendentes para a visão de Boyle. A trilha anterior de Young Fathers foi um risco que valeu a pena, contribuindo para sua atmosfera única, enquanto “O Templo dos Ossos” contém excelentes needle drops, como das bandas acima mencionadas, entretanto as composições originais de Hildur Guðnadóttir são apáticas, não acentuam a atmosfera de uma forma profunda mesmo que sejam funcionais.

Por fim, mesmo que haja equívocos e pequenos desapontamentos, é insano que um filme de franquia possa conter tantos temas potentes representados de maneira tão ousada, em forma e texto, e ser, com clareza, fortemente movido pela criatividade dos artistas que traduzem as ideias para a linguagem do cinema. Há uma riqueza na visão deste Reino Desunido, nos confrontos de seus habitantes, humanos e infectados, que no momento, falho em conseguir encontrar em qualquer outra saga exceto Mad Max. O gancho para a terceira e última parte é forte ao ponto de ansiar por ela no momento que os créditos começam a subir. Então tratem de ir ao cinema, porque como ninguém foi ver, logo sai de cartaz. Mas façam bom uso em streaming quando aparecer por lá.

Formado em Cinema e Audiovisual, aspirante a aspirante a cineasta, romântico caiçara, rato de academia, não fundou a Toca, assiste todo tipo de cinema, contanto que lhe interesse.