Ocasionalmente prova-se difícil encontrar um ângulo do qual falar sobre algo, neste caso, um filme. É possível entrar num âmbito pessoal, explorá-lo a fundo, “nerdolar” à vontade, assim como explorar minúcias técnicas de uma obra, especialmente quando ela não desperta novas emoções. “KPop Demon Hunters” existe neste espaço onde o valor pessoal (ainda) é relativamente escasso, e desenrolar argumentos sobre linguagem cinematográfica soam destoantes do que interessa ou representa o projeto. Afinal, um texto, além de explorar a forma, pode conceitualmente adotar o impacto da mesma. Este longa da Netflix é, acima de tudo, muito divertido, e com esta mentalidade tudo será desenvolvido. Aqui carrego o fluxo de pensamento da fangirl de 12 anos que existe em cada um de nós e escutou e cantou mais de uma vez, junto de uma minúscula porção de vergonha, as faixas dessa trilha sonora.
Somos apresentados logo de início aos fãs da banda das personagens título, Huntrix, e cada grupo relatando sua integrante favorita, e assim começarei: Eu sou fã da Mira. Eu tenho muitas razões, particulares demais para desconhecidos online, e nunca se sabe quem lerá isso aqui, então fica a indireta, que ela é cômica, realística, e frustrantemente, o meu tipo. Pavio curto, insegura, mas leal, com coração de ouro, em busca do conforto e equilíbrio que uma família escolhida é capaz de oferecer. As batalhas internas de cada membro do trio principal são fáceis de conectar e espelhar diversos de nós, assim como nossos entes queridos, sendo um elemento sempre almejado pelo cinema de animação, onde nossas Guerreiras exalam deste poder narrativo.
A trama explora as personagens Rumi, Mira e Zoey, cantoras de K-Pop de dia, caçadoras de demônios à noite, utilizando de seu talento musical para formar uma barreira protetora, a Honmoon, que impede as criaturas, e seu mestre, Gwi-Ma, de invadir o plano terrestre. Para desestabilizar as guerreiras, o vilão envia cinco demônios, incluindo Jinu, como uma boy band rival, os Saja Boys, e como o próprio filme humoriza… “Funciona”. A sinopse já revela o que há de melhor aqui, a criação de mundo. É uma mitologia tão única e específica, cheia de potencial para expansão, sabiamente não elaborada. Chega de teasers para sequências vindouras, entregue o principal que serve a este momento e deixe algumas interrogações para os mais curiosos, como os detalhes do nascimento da protagonista Rumi, que pasmem… é metade demônio!

A partir deste ponto o cerne dramático é esclarecido, o peso do segredo de Rumi, a vergonha, o medo da rejeição, levando-a a esconder seu eu completo. Este é um dilema universal, que todos carregam consigo em intensidades diferentes, existe aquele meme “Acidentalmente mostrei demais da minha personalidade”, e a conexão sob o guarda-chuva LGBTQ+ é evidente, certamente um dos fatores responsáveis pelo impacto popular gerado pela película. Esta tempestade emocional sobre as costas de Rumi é o que a aproxima de Jinu, o demônio líder da boy band, que apesar de antagonista em pontos, passa longe de ser um vilão. Ambos agem em favor de missões que os favorecem apenas à parte que permitem serem vistas, mas não a seus âmagos. Este elo leva a um número musical, “Free”, que transcende o diálogo e o realismo à imagens etéreas, elevando o poder emocional, sabe… como filmes do gênero costumavam ser! Deveria ser a norma, mas nenhum outro musical dessa década teve tão ínfima ambição.
O estilo de animação frenético caótico adotado, similar a outros do currículo da Sony Animation como Aranhaverso e Família Mitchell, numa espécie de anime 3D, pode parecer como muito numa primeira vez, mas fácil de se acostumar, levando à aceitação dessa realidade aumentada do universo. Os movimentos de câmera espalhafatosos, o fluxo da edição, as cores vibrantes, o ocasional uso de slow motion, os mínimos detalhes característicos distintos de cada demônio, são aspectos-chave da forma para passar essa atmosfera de perigo, riqueza de mitologia, e o ritmo acelerado como um pico de glicose no sangue. Você pode ficar exausto no final, mas estava com os olhos fixos na tela.
Tal rapidez é capaz de gerar algumas pequenas infelicidades. Como o foco permanece em Rumi, os conflitos pessoais de Mira e Zoey acabam deixados de escanteio, introduzidos através de exposição e raramente dramatizados/cantados, mais perceptível quanto à última, e sua necessidade compulsiva de agradar a todos. O anseio de um número musical sobre elas existe, mesmo reconhecendo que retardaria a agilidade planejada da narrativa. Ao menos, quando tudo culmina no clímax, a catarse atinge com força, visual e musicalmente, capaz de gerar arrepios até nos mais cínicos, como o autor desta crítica, ainda mais tratando-se de originais Netflix e animações americanas modernas.
Enfim, de longe o que há de mais importante e o que qualquer um mais gostaria de saber, o ranking das canções:
1 – What It Sounds Like
2 – How It’s Done
3 – Takedown
4 – Free
5 – Golden
6 – Your Idol
7 – Soda Pop

Como pode observar, eu jamais cairia na lábia dos Saja Boys! Huntrix até o fim! Talvez chocante aos fãs mais ávidos, “Golden” não me cativa. Excelente mensagem, belas cenas no produto final são geradas pela música, contudo aqui entra o ceticismo do autor, que reconhece “Let It Go” de Frozen em quase todas dessas animações musicais da última década. A canção é sobre a Rumi, ser quem é, viver sem medo e vergonha (bem familiar), mas o elo do trio, a amizade e o conflito, é o que mais engaja, e o Top 3 reflete isso. “How It’s Done” é uma perfeita introdução a elas e ao filme, a definição de “chegar chegando”, refrão chiclete numa sequência de ação digna de quadrinhos super-heróicos, não tem o que não gostar; “Takedown” é simplesmente, por pura falta de melhor definição, f#da, mas com um peculiar espaço na narrativa, trilhando o caminho que levaria ao atrito das Guerreiras; Finalmente, eu sou um homem de “What It Sounds Like”, ela é o que há de pessoalmente mais especial aqui, palavras me fogem, não fazem jus, ela fala por si mesma, transcende o todo.
Acredito ter feito jus à mentalidade da fangirl pré-adolescente emocional, com alguns leves requintes de cinefilia e infelizes aspectos mais masculinos. “KPop Demon Hunters” tem o grande mérito de cativar e entreter, construir uma jornada de peso, mas fácil de digerir, e universal, mesmo que mais potente ao mirar por ângulos específicos. O Oscar de Melhor Animação seria até bem merecido, apesar do choque de tamanho título absurdo entrar para a História do Cinema só pela vitória. A equipe criativa da Sony Animation mostrando ao mundo inteiro How It’s Done-Done-Done!

Formado em Cinema e Audiovisual, aspirante a aspirante a cineasta, romântico caiçara, rato de academia, não fundou a Toca, assiste todo tipo de cinema, contanto que lhe interesse.
