Sinopse: Aos 19 anos na Universidade de Oxford, Sherlock Holmes não é ainda o mestre detetive que ele se tornará. Ele é bruto e sem filtro, lhe falta disciplina. Um assassinato em Oxford coloca sua liberdade em risco, começando sua aventura ao tentar desvendar seu primeiro mistério, levando-o a uma conspiração global.
Sherlock Holmes é meu personagem favorito. “Sherlock Holmes” de Guy Ritchie é meu filme favorito. Apesar de passar longe de um purista do cânone criado por Arthur Conan Doyle, são os únicos livros do detetive britânico aos quais dediquei meu tempo, qualquer um fora de sua autoria enxergo como fanfic, e para esse fim, tenho as adaptações de outras mídias. O elemento que gerou interesse em “Jovem Sherlock” é, exclusivamente, a direção do cineasta acima mencionado nos dois primeiros episódios, facilmente os melhores da série, uma que em seu decorrer se perde na essência do que é uma história do maior personagem já criado.

A premissa inicial é cativante, característica de Ritchie, com alguns floreios relativos a seus filmes passados do detetive, como na introdução do personagem-título numa luta na prisão. Um Sherlock cabeludo e barbudo, briguento mas sem técnica e força, que rouba porque pode e devolve logo em seguida, algo que consideraria condizente com um passado que o homem que seguimos nas histórias clássicas teria. Seu irmão Mycroft (Max Irons), numa adaptação infiel, distante do intelecto mestre do original, e rasa, servindo majoritariamente para exposição e deus ex machina, consegue retirar o jovem do cárcere, e o envia para trabalhar como servente em Oxford, onde conhece seu futuro arqui-inimigo, James Moriarty (Dónal Finn), no momento como seu fiel escudeiro, o que é em si um grande atrativo.
Confesso ter um fraco por narrativas que envolvem uma evolução (ou involução) entre amizade e inimizade. Como exemplos de ambas, posso citar “Avatar”, onde Jake Sully encontra seu rival Na’vi em Tsu’tey, para no final da história ambos liderarem um exército juntos, lutando lado a lado como irmãos; e também “Smallville”, em que acompanhamos Clark Kent e Lex Luthor como melhores amigos por anos até tudo se deteriorar na rivalidade mais famosa dos quadrinhos, sendo uma comparação mais que adequada – “Jovem Sherlock” é o “Smallville” Holmesiano, e se tem alguém que sabe fazer uma narrativa de bróder / “dudes rock”, é Guy Ritchie. Quando acompanhamos o cotidiano de Holmes e Moriarty e os mistérios mórbidos mundanos em Oxford, ouro puro. A dupla protagonista tem química e atrito em dosagens perfeitas, e a essência procedural das narrativas clássicas é, inicialmente, bem traduzida e modernizada, com alguns nomes tradicionais surgindo aqui e acolá, e a vestimenta icônica do detetive referenciada, até satirizada.
Devo dedicar um parágrafo a Hero Fiennes Tiffin, cuja escalação como Holmes me gerou incertezas no passado, mas confesso a grata surpresa. Numa análise puramente performática, Fiennes Tiffin capta a essência do jovem e cru Sherlock, inexperiente, emoções à flor da pele, ainda descobrindo seu caminho no mundo. Há também sábias decisões em não chamar atenção demasiada à seus dons dedutivos que em nossa cultura evoluíram a super-poderes estapafúrdios, com o famigerado e incorretamente apontado “palácio mental” com usos pontuais e concretos, assim como suas conclusões seguem uma trajetória clara, nunca atingindo uma resposta que transcende a lógica. Porém, não é como se fosse o mistério mais desafiador do mundo.

Em determinado ponto, a narrativa chega em conspirações e segredos dentro da família Holmes, que apesar de bem executadas em suas introduções, foram o suficiente para gerar um certo receio, meu olfato não mentia – tem m*rda perto. Com toda certeza, um dos twists finais da temporada foi uma trapaça ridícula, que desenvolveu-se de forma pífia e melodramática. Ignorando o valor canônico das ideias, uma virada de trama envolta em “personagem aleatório com papel minúsculo é a pessoa mais importante de toda a história” jamais surtirá efeito positivo, é uma rasteira, pura e simples. Quanto ao desenvolvimento, é onde o lado ilógico entra em cena, vislumbramos pouco demais desse lado da narrativa, deixando as grandes e simples interrogações que temos soltas no ar, pela pura falta de resposta mensurável. Aconteceu porque é o que os roteiristas queriam, e é isso. Conservarei os spoilers, mas quem assistiu sabe de qual revelação estou falando.
Além do mais, existe um cansaço particular em ver o investigador londrino sempre envolvido em situações de salvar o mundo. Há seu valor, a duologia de Ritchie acaba abordando o mesmo, contudo num filme funciona mais propriamente. Não só pelo fator cinematográfico, mas eles contém um enfoque dado ao mundano, os bairros e o povo de Londres, o mistério que nasce na sarjeta e estende-se ao globo. Tal transição é melhor exercida em narrativa fílmica do que seriada, pelo resumo da proposta da primeira. Quando assistimos oito episódios de uma hora, a sensação emulada se aproxima de uma trilogia estilisticamente desconexa, ao invés de algo conciso. Acaba por ser estúpida a distância entre como a temporada se inicia até onde ela se conclui.
Um lugar narrativo onde “Jovem Sherlock” pode encontrar mais sucesso criativo, está indubitavelmente em abordar casos menores e episódicos, focados nas interações entre os personagens principais e o mundo que os rodeia, neste caso, o campus de Oxford na década de 1870. Ao expandir tudo para “máquinas de apocalipse”, “dominação mundial”, entre outros, os clichês emulados associam-se demais ao cinema super-heróico parcialmente saturado de hoje em dia. Mais sujeira, mais crueza, caminhos desconhecidos, precisamente o que Ritchie nos prometeu nos primeiros capítulos, e igualmente o que se perdeu em sua ausência na direção.

Formado em Cinema e Audiovisual, aspirante a aspirante a cineasta, romântico caiçara, rato de academia, não fundou a Toca, assiste todo tipo de cinema, contanto que lhe interesse.
