Dá pra sentir que Mortal Kombat II já nasceu prejudicado, antes do ano começar, tinha certeza de que seria um péssimo filme, principalmente após seu último adiamento. Fazer continuação de um filme que foi tão mal recebido exige muito mais do que apenas melhorar certos pontos, era necessário um grande avanço. Cheguei na sessão como sempre, de coração aberto, e fiquei muito satisfeito com o resultado final.

Existe uma consciência aqui de que o anterior errou feio ao ignorar o básico da franquia de jogos e que agora não dava mais pra fugir, então após um primeiro longa que serve para preparar o terreno da forma mais capenga possível, a segunda parte chega para entregar o que os fãs realmente queriam ver.
A história passa a dar foco aos personagens vindos do jogo, não à toa é Kitana (Adeline Rudolph) quem surge logo na primeira cena em um flashback envolvendo seu passado com o imponente vilão Shao Khan (Martyn Ford). Ela divide esse protagonismo com Johnny Cage (Karl Urban), agora vivido como um sujeito meio gasto, mais interessante do que o arquétipo padrão do personagem.
Enquanto isso, o antigo protagonista Cole Young (Lewis Tan) continua ali, mas claramente deslocado, quase um lembrete incômodo de decisões do filme anterior. O roteiro parece saber disso e simplesmente empurra ele pro canto. Funciona? Enquanto o filme esquece dele sim, mas sempre que aparece é um lembrete horrível do filme de 2021.

O que realmente muda é a relação com o jogo. Aqui não tem mais tanta vergonha: o filme abraça um pouco mais da estética, os personagens e até a estrutura da franquia. Isso não veio do nada, os próprios criadores falaram em corrigir o que faltou no primeiro, incluindo o torneio e elementos clássicos . E dá pra sentir isso o tempo todo. Sai a tentativa de “explicar demais” em um mundo que possui certo pé no realismo mesmo com todas as maluquices, e entra um universo que simplesmente aceita suas próprias regras.
E claro, isso vem junto com o que o público queria desde o começo: violência e os personagens do jogo tendo destaque. O filme não economiza (quando quer, por vezes também é meio covarde) no sangue, têm membro decepado, golpes exagerados, é um prato cheio. Mas não é uma violência realista, se trata de um tipo de violência que celebra os golpes dos jogos em um filme que parece entender o apelo da franquia pela ação. As lutas são bem melhor coreografadas, mais exageradas e mais próximas da lógica dos games, o que pode parecer até besta, mas faz uma diferença absurda, e remete muito mais ao filme de 95 do que ao de 2021 que muita gente gosta (não é meu caso).

Só que no meio disso tudo, ainda dá pra perceber que o filme parece estar tentando muitas coisas ao mesmo tempo. Parece um ensaio de como essa franquia pode funcionar no cinema. Tem personagem demais, ideias demais, e nem tudo encontra espaço pois a duração é bem curta. Alguns arcos começam e simplesmente ficam pela metade. Para quem espera ver personagens como Liu Kang e Kung Lao ganhando protagonismo, vai precisar esperar pelo terceiro filme
Mas voltando ao que ajuda o filme se tornar tão divertido: o torneio, o MORTAL KOMBAT. Finalmente ele está presente e não só como conceito, mas sendo o que move a trama. As lutas passam a ter um senso de progressão, pois é realmente isso que acontece, para o filme avançar, lutas precisam acontecer e sangue precisa ser derramado, então é um filme repleto de ação. É legal ver a disputa de equipes pelo destino de seus mundos.No fim das contas, Mortal Kombat II não tenta ser o ápice do cinema de ação, mas cumpre a promessa básica que seu antecessor negligenciou. Ao abraçar a cafonice sangrenta (mesmo que visualmente seja pouco inspirado na maior parte do tempo) e a estrutura de torneio, o longa realmente parece lembrar os jogos, o que é aqui seu grande trunfo. As referências são legais, os personagens no geral são melhor utilizados – mesmo prejudicados pela curta duração. Um belo avanço e o primeiro filme de Mortal Kombat que realmente me divertiu, quem diria mas… Fica a minha recomendação.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.