Ao final da sessão, após os créditos finais ao som da linda canção “The Better Part of Bravery”, da banda The Decemberists, me faltavam palavras para descrever o que senti vendo O Bosque Selvagem, nova animação da Laika, estúdio responsável por grandes filmes como Coraline, Kubo e as Cordas Mágicas e ParaNorman. Uma semana depois, tentando encontrar palavras para expressar meus sentimentos e entender melhor o que essa experiência significou para mim neste texto, sinto que ainda não sou capaz de fazê-lo por completo. E talvez não exista elogio maior que esse. Porém mesmo sem ter como fazer justiça ao filme, tenho muito para dizer.

É muito gratificante sair de um filme sentindo que ele teve a capacidade de nos mudar, nem que seja um pouquinho, para melhor. Não necessariamente porque nos apresenta uma grande lição de vida, oferece respostas para questões que carregamos, ou porque nos faz olhar para o mundo de outra maneira, mas porque nos lembra de coisas que, em meio à correria do cotidiano, acabamos deixando de lado.
Vivenciar essa experiência a poucos dias de um momento de tanto nervosismo para o país, com uma eleição tão importante pela frente, certamente pesou ainda mais. Talvez eu não consiga separar completamente o que senti diante da tela daquilo que estava sentindo fora dela, mas também não vejo por que deveria. Afinal, a arte não existe isolada do mundo, e a forma como nos relacionamos com ela passa inevitavelmente pelo momento em que a encontramos. Nesse sentido, O Bosque Selvagem é uma das animações de grande alcance mais abertamente políticas que já vi, sem que suas discussões estejam restritas a um contexto específico.
Baseado no livro homônimo de Colin Meloy, o filme acompanha Prue, uma garota que está passeando com seu irmão mais novo, Mac, quando ele é levado por um bando de corvos. Diante do desaparecimento do menino, ela parte para a Floresta Impassável em uma tentativa desesperada de resgatá-lo, acompanhada por Curtis, um colega de escola tão desajeitado quanto bem-intencionado. O que começa como uma missão de resgate logo se transforma em uma aventura por um lugar misterioso, habitado por animais falantes, comunidades com costumes próprios e figuras que disputam o controle daquele território.

Quando mencionei anteriormente que o filme nos lembra de coisas que acabamos deixando de lado, estava pensando especialmente na maneira como ele aborda o amadurecimento e a importância de não permitir que ele apague a magia da nossa vida. Prue está crescendo e começa a se afastar de coisas que considera infantis, como se acreditar no extraordinário fosse incompatível com a necessidade de se tornar mais velha. É justamente quando se vê diante de um mundo que desafia tudo aquilo que acreditava que essa postura começa a ser colocada à prova. Gosto de como o filme trabalha essa questão sem idealizar a infância ou sugerir que amadurecer seja algo ruim. Existe uma grande diferença entre abandonar determinadas ingenuidades e perder a disposição de enxergar o mundo para além daquilo que já conhecemos, e Prue precisa aprender a reconhecer essa diferença enquanto tenta salvar alguém que ama.
Ela é uma protagonista muito fácil de acompanhar justamente porque não é uma criança inocente que simplesmente aceita tudo o que acontece ao seu redor, mas também não parece ter sido escrita por alguém que acredita que tornar uma personagem jovem mais interessante significa fazê-la agir como uma adulta em miniatura. Prue tem personalidade, comete erros, demonstra impaciência e precisa lidar com situações muito além do que conhece. Existe algo de bastante reconhecível na maneira como tenta se afirmar enquanto ainda está descobrindo quem é, e isso me fez lembrar de Coraline, outra protagonista da Laika que passa longe de ser perfeita ou especialmente simpática para conquistar o público. É gratificante ver um estúdio que constrói personagens com tanta individualidade sem subestimar a inteligência de quem está assistindo.
Mas o que dá à jornada de Prue um peso tão particular é a relação com Mac. Embora ele ainda seja muito pequeno para participar ativamente da aventura, o vínculo entre os irmãos é o que sustenta a história desde o início. Prue não parte para a floresta por acreditar em uma missão grandiosa ou por querer provar alguma coisa ao mundo, ela só quer seu irmão, e essa motivação nunca deixa de importar, mesmo quando a aventura passa a envolver conflitos muito maiores. A preocupação de Prue com Mac é evidente nas escolhas que faz e nos riscos que aceita correr, e existe algo muito bonito em acompanhar uma garota que ainda está crescendo tentando ser, para o irmão, alguém em quem ele pode confiar, mesmo que ele não tenha qualquer noção do que esteja acontecendo. E filmes sobre irmãos me pegam em um lugar muito especial, pois me remete imediatamente aos meus irmãos que são parte tão importante da minha vida.

A dinâmica familiar, por outro lado, é bem mais estranha do que parece inicialmente. Os pais de Prue são superprotetores, especialmente em relação a Mac, e as regras que impõem à filha parecem exageradas até que descobrimos que existe uma história muito maior por trás delas. Não quero entrar em detalhes que estragam qualquer descoberta, mas gosto de como o filme evita tratar os pais como figuras simplesmente sábias que sabem o que é melhor para as crianças. Eles também carregam culpa, tomam decisões questionáveis e precisam lidar com as consequências delas.
A relação de Prue com Curtis também contribui para que a aventura não se resuma à trajetória individual da protagonista. Inicialmente, ele parece cumprir o papel daquele companheiro desajeitado que acompanha a heroína e oferece alguns momentos de humor, especialmente por sua dificuldade em demonstrar a coragem que gostaria de possuir. Mas Curtis não é apenas um alívio cômico, muito menos alguém que existe para facilitar a jornada de Prue. Sua participação também permite ao filme discutir o que significa ser corajoso, sobretudo quando existe uma distância considerável entre a imagem que construímos de nós mesmos e aquilo que conseguimos fazer diante de uma situação real. Existe algo de bastante humano nessa tentativa de parecer mais preparado do que realmente estamos, e gosto de como o personagem encontra espaço para crescer sem precisar perder as características que o tornam tão simpático. Sua relação com Prue funciona justamente porque os dois não precisam ser iguais para aprender um com o outro, é tudo muito natural na dinâmica entre eles.
Seguindo nos personagens, Alexandra é uma vilã excelente, tanto pela construção visual quanto pelas motivações que orientam suas ações. Existe um mundo por trás de suas atitudes, e a personagem é mais interessante justamente porque conseguimos compreender de onde vem sua obsessão sem que isso torne aceitáveis os meios que escolhe para alcançar seus objetivos. Sua aparência reforça a imponência e a ameaça que representa, mas o que realmente a torna assustadora é a disposição de ultrapassar qualquer limite para conseguir o que deseja. E não se enganem: ela é uma vilã mesmo, sem aquela pataquada de transformar toda atitude abominável em preparação para um arco de redenção, o que me deixou muito aliviado.

É também a partir de Alexandra que a política de O Bosque Selvagem ganha força. A Floresta Impassável não é um lugar sem regras, onde cada personagem simplesmente vive como deseja. Há uma disputa pelo território entre Alexandra e os bandidos liderados por Brendan, um clã de pássaros que também participa dos conflitos e uma estrutura burocrática concentrada em South Wood, onde o governador e seus subordinados parecem mais preocupados com os próprios interesses do que com os problemas que atravessam a floresta. Enquanto isso, os coiotes formam a força militar de Alexandra, e outros grupos tentam sobreviver em meio a disputas que nem sempre começaram por vontade própria. Cada comunidade possui seus interesses e sua maneira de compreender aquele mundo, e essa variedade faz com que a floresta pareça existir para além da aventura de Prue.
O que mais me interessa nessa organização é que o filme não apresenta o poder apenas como uma questão de quem ocupa o cargo mais alto. Ele também aparece na capacidade de determinados grupos de impor suas vontades aos demais, na maneira como a burocracia se protege das consequências de suas decisões e na dificuldade de construir alianças entre pessoas que não compartilham das mesmas crenças ou necessidades. O governador, por exemplo, não representa a mesma ameaça que Alexandra, mas sua posição e a estrutura que o cerca ajudam a mostrar como uma sociedade pode continuar funcionando de maneira injusta mesmo quando aqueles que deveriam administrá-la não demonstram grande capacidade de resolver seus problemas. Já a disputa entre Alexandra e os bandidos revela que os conflitos da floresta envolvem também território, pertencimento e a possibilidade de continuar existindo sem se submeter à vontade de quem pretende dominá-la.
Nesse sentido, foi impossível não pensar em Princesa Mononoke, do mestre Hayao Miyazaki, pela maneira como os dois filmes relacionam poder, território e natureza. A animação japonesa constrói um conflito em que os interesses humanos entram em choque com outras formas de existência, sem reduzir todos os envolvidos a heróis ou vilões. O Bosque Selvagem é mais direto em sua oposição a Alexandra, mas também entende que a floresta não é apenas um cenário bonito a ser atravessado pela protagonista. É um lugar habitado, com comunidades que possuem história, costumes e algo a perder. A comparação também me fez pensar em A Viagem de Chihiro, especialmente na forma como a fantasia permite construir sociedades com hierarquias e regras próprias, revelando contradições que não são tão diferentes das nossas. Nos três filmes, entrar em um mundo extraordinário não significa escapar dos problemas da realidade, mas encontrar outras maneiras de reconhecê-los.

A magia, nesse contexto, é parte fundamental da narrativa. Ela interfere na maneira como os habitantes da floresta compreendem suas experiências, preservam seus costumes e estabelecem limites para aquilo que pode ou não ser feito. Crenças e tradições não estão separadas das relações de poder, e aquilo que um grupo considera sagrado pode ser visto de maneira completamente diferente por outro. Alexandra então transforma suas próprias convicções em justificativa para ultrapassar limites que deveriam ser respeitados, o que ajuda a desencadear muita coisa na trama. A discussão sobre fé, tradição e poder funciona porque está incorporada ao mundo que o filme constrói, e não aparece apenas como uma comparação evidente com a política contemporânea. Ainda assim, é difícil não reconhecer como a imposição de uma visão de mundo sobre todas as outras pode servir de justificativa para a violência, sobretudo quando quem sofre suas consequências não tem o mesmo poder para se defender.
Visualmente, o filme é mais uma demonstração de por que a Laika ocupa um lugar tão especial na animação contemporânea. O estúdio sempre teve uma relação muito própria com o fantástico, encontrando beleza em formas que também podem ser consideradas estranhas e fora do padrão. E aqui, essa identidade ganha uma escala impressionante, com ambientes construídos para recompensar o olhar atento e personagens cuja aparência contribui para a sensação de que estamos diante de um mundo tão único. A floresta não é simplesmente bonita, nem precisa ser. Há algo de ameaçador em sua vastidão, que causa uma impressão de que os personagens são apenas visitantes em um espaço que existia muito antes de suas chegadas.
O stop-motion confere aos movimentos uma materialidade muito particular, como se pudéssemos sentir a existência física daqueles bonecos, objetos e cenários. Mesmo quando a história alcança proporções grandiosas como na fenomenal cena da batalha, existe uma intimidade nessa técnica que combina muito bem com a proposta do filme. Em uma época em que a produção audiovisual parece cada vez mais orientada pela velocidade e pela facilidade de gerar imagens, há algo especialmente valioso em uma obra que depende de tanto trabalho manual para existir. Não significa que uma técnica seja automaticamente superior às outras, mas que a escolha do stop-motion acrescenta uma dimensão à experiência que não se limita à estética. Que se foda IA, arte de verdade é muito foda.

É claro que a ambição de O Bosque Selvagem também traz alguns desafios. São muitos personagens, comunidades e conflitos disputando espaço em uma narrativa que já acompanha a jornada de Prue e Curtis, e nem todas essas peças recebem o mesmo tempo para se desenvolver, mas sinceramente, fiquei muito satisfeito com o tempo dedicado a cada núcleo. Essa amplitude faz parte do que mais admiro no filme: a sensação de que existe muito mais naquele mundo do que aquilo que conseguimos conhecer durante duas horas e vinte de projeção. Nem tudo precisa ser explorado por completo para que a floresta pareça viva, e poucas animações recentes me fizeram sentir tanta vontade de continuar naquele universo, feliz de ter o livro também para voltar sempre para este mundo.
No fim, o que torna essa experiência tão marcante para mim é a maneira como todas essas questões se conectam à “simples” história de uma garota tentando encontrar o irmão. Prue começa a aventura acreditando que precisa enfrentar sozinha uma situação que está muito além de suas capacidades, mas, ao longo do caminho, descobre que compreender o mundo também significa reconhecer as pessoas que vivem nele, questionar as regras que parecem inevitáveis e aceitar que algumas coisas só podem mudar quando diferentes grupos decidem agir juntos. Em um momento em que é fácil se deixar consumir pelo medo do que está por vir, encontrar uma história que reconhece a gravidade dos conflitos sem abrir mão da possibilidade de mudança foi particularmente significativo para mim.
Se, uma semana depois da sessão, continuo tendo dificuldade para traduzir em palavras tudo o que senti (mesmo que esse texto esteja bizarramente longo, eu certamente não consegui falar 10% do que gostaria sobre), é porque O Bosque Selvagem conseguiu fazer algo que considero cada vez mais raro: me lembrar de que a fantasia também pode ser uma maneira de compreender a realidade e de imaginar que ela não precisa permanecer como está.
Saí pensando na importância de preservar aquilo que nos permite olhar para o mundo com curiosidade, na necessidade de questionar e, principalmente, na disposição de cuidar das pessoas que amamos sem deixar de olhar para tudo o que existe ao nosso redor. Talvez seja isso que me tocou tanto nessa história: por trás de toda a magia, das criaturas extraordinárias e das disputas pelo destino de uma floresta, existe uma menina que não aceita desistir do irmão. E, às vezes, é a partir desse tipo de vínculo que conseguimos começar a imaginar um mundo diferente.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.