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Por algum fator do destino, sinto-me como um disco arranhado, pois todas minhas críticas até agora são sobre produções atuais da Disney que carregam um valor sentimental devido ao ano de 2010. Lembro-me de tropeçar no trailer de “Percy Jackson e o Ladrão de Raios”, enquanto estava numa LAN HOUSE em Sta. Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo, e ficar muito interessado. Aquele garoto de 10 anos adorou o filme, ele era o público-alvo inegável, e o levou ao livro, germinando em sua inocente cabeça o interesse pela leitura. O maior mérito das obras de Rick Riordan é sua acessibilidade às crianças, sendo talvez um dos melhores exemplos de como incentivá-las a gerar o hábito… pelo menos, funcionou comigo.

Meu presente de Natal no ano seguinte foram cópias dos terceiro e quarto capítulos da saga, “A Maldição do Titã” e “A Batalha do Labirinto”, ambos lidos em menos de duas semanas. Não “devorei” os livros, sempre curti deixá-los crescer no meu imaginário, senti-los no meu tempo e ansiar por mais das aventuras, especialmente com esses mencionados sendo os melhores exemplares da pentalogia. Estou enrolando no meu fator pessoal com Percy Jackson, pois honestamente tudo isso é mais interessante e profundo, em absoluto, que qualquer elemento oferecido pela série do Disney+. Sinto que poderia resumir toda a atrocidade corrompida deste projeto com uma singela e cortante frase: Se este fosse “o meu Percy Jackson” aos 10 anos de idade, jamais procuraria os livros, nem teria conseguido sequer concluir a primeira temporada.

Um comentário sobre o primeiro ano da série, baseada em “O Ladrão de Raios”: Qualquer suposta fidelidade maior ao material original é mero bait, restrito à elementos da estrutura narrativa e a idade dos personagens, nada mais. Há tantas invenções deslocadas quanto o longa de 2010, em geral exclusivamente para gerar momentos filler, e falha profundamente em captar o espírito de aventura do livro, onde o filme foi muito bem sucedido, junto de um elemento pouco creditado daquele longa, a criação de mundo. Para fins comparativos, a representação do Mundo Inferior de Hades e o Olimpo de Zeus, uma década atrás, uma Los Angeles em chamas e heavy metal com palácios góticos, e brancas estruturas de mármore enormes sob um céu azul escuro, respectivamente. Atualmente, na série, ambas terras estéreis com paleta de cores preto-e-branco. O principal exemplo da inepta criatividade dos responsáveis por esta série, lugares antagônicos representados exatamente iguais, sem o mínimo senso de maravilha. Não é à toa que produções modernas caíram na tendência de explicar a trama a cada cinco segundos, pois é impossível querer assistir à tela constantemente se nada nela apresentada é cativante. Muitos levam seus olhares ao celular… eu vou para a minha parede branca.

A nova temporada, baseada em “O Mar de Monstros”, consegue dobrar a meta de executar todas as falhas da aventura inicial, seja o ritmo prolongado estendendo a narrativa desnecessariamente, uma barriga que leva ao mesmo ponto do material original; a caracterização limitada e incoerente dos personagens (há diversos momentos impensados que eles agem CONTRA seus próprios interesses, é hilário), enfatizada excessivamente em falas e pouco em ações, onde não só todos os livros são um sucesso, como momentos de coragem e esperteza são chave para diversos dos mitos gregos, ou seja, até em emular narrativas clássicas o fracasso é retumbante; e a completa falta de imaginação e dedicação dos criativos, diminuindo elementos visualmente estimulantes de sua matéria-prima a vistas distantes ou até inexistentes, deixando-nos apenas com mais cinza e marrom, terra e concreto, pessoas com camisetas, jeans e moletom, em vez dos centauros, cavalos marinhos, navios pirata e monstros gigantes que haviam de sobra originalmente.

Porém, a inegável maior ofensa, uma que me forçou a desembestar um longo áudio de desabafo a uma amiga, também fã dos livros, é a absoluta falta de cartas na manga destes roteiros. Literalmente todo mistério, intriga ou twist presente no original é exposto diante de nós numa trivialidade sem vergonha. A trama consiste em Percy e Annabeth (Walker Scobell e Leah Sava Jeffries), junto do ciclope Tyson, meio-irmão do protagonista (Daniel Diemer), numa aventura pelo Mar de Monstros, no Triângulo das Bermudas, em busca do amigo Grover (Aryan Simhadri) e do Velocino de Ouro. O grupo procura o artefato mágico para salvar o Acampamento Meio-Sangue, onde residem os semideuses, pois a árvore mágica que o salvaguarda foi envenenada, expondo-o ao ataque de inimigos.

A fim de exemplificar a grande ofensa acima descrita, havia um mistério sobre quem havia envenenado a árvore de Thalia, revelado apenas ao final da história, num ato de esperteza do herói-título, enquanto aqui, é diretamente presenciado nos minutos iniciais do primeiro episódio; No decorrer da trama original, Percy tem um sonho com uma menina estranha que ele não conhece, apenas no final descobrindo ser Thalia, a menina cujo nome a árvore deriva, filha de Zeus, e na série, ele sabe imediatamente quem ela é, apenas por já terem revelado-a ao público em flashbacks inventados para “encher linguiça”; e maior de todos, o capítulo final do livro traz a ressurreição da já mencionada semideusa, um twist enorme que choca todos os personagens, sendo inclusive o ponto alto de uma história relativamente mediana, enquanto nesta adaptação, essa possibilidade já é revelada como fato no trailer do próximo episódio nos créditos, antes sequer do finale da temporada! Portanto, cada potencial de drama é erradicado deliberadamente… por alguma razão que transcende incompetência, é sabotagem. Você não revela que Lord Voldemort e Tom Riddle são a mesma pessoa no meio de A Câmara Secreta, espera-se até o clímax, é para isso que toda a sua jornada foi construída. Na mesa de pôquer você não conta para todo mundo as cartas que tem, certo? Vai contra todo o ponto do jogo.

Tudo isso pode parecer como um purismo particular da palavra-escrita contra a adaptação, porém está servindo para ilustrar… “Percy Jackson” não é uma obra profunda tematicamente rica de Mario Puzo, não é intelectual, é diversão simples, entretenimento numa fórmula testada, mas eficiente. Estes roteiros e visuais para a série nem o mais puro básico conseguem apresentar com êxito. Os poucos episódios que podem ser definidos como medianos ou medíocres são quase um ar fresco de qualidade, pois todo o resto é o suco da raiz da ruindade do audiovisual moderno corporativo, com sua fotografia estática inexpressiva, desenho de luz inexistente, edição picotada e escrita insegura, explicando-nos cada beat narrativo o tempo todo, repetidas vezes, como um podcast narrando eventos transparecendo em tela. Tirando o porcamente explorado talento mirim e alguns efeitos visuais tecnicamente competentes, não há nada aqui.

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