Ponto Sem Retorno parte da clássica premissa de mundo pós-apocalíptico: uma doença matou grande parte da população e quem sobreviveu precisa lutar pela própria vida em um mundo completamente destruído. Parece genérico? Não só parece, como é. O filme acompanha Hig (Jacob Elordi), um piloto que vive isolado em um hangar ao lado de seu cachorro e de Bangley (Josh Brolin), um homem muito mais preparado para matar do que para conversar. Quando Hig capta uma transmissão misteriosa pelo rádio, ele decide descobrir de onde ela veio e, talvez, encontrar alguma coisa que ainda pareça com esperança.

E até existe uma ideia interessante aí. The Dog Stars (título original que faz referência a um momento do filme) poderia ser um filme sobre o que significa continuar vivendo depois que praticamente tudo aquilo que dava sentido à vida desapareceu. O próprio título original tem uma relação mais poética com essa ideia de companhia, sobrevivência e memória. Já o título brasileiro: Ponto Sem Retorno transforma tudo isso em uma frase extremamente literal, quase como se precisasse explicar para o espectador qual é o estágio da jornada do protagonista. É um título que funciona, e que curiosamente, combina perfeitamente com a falta de sutileza do roteiro.
Ridley Scott parece já não ter mais o que contar e volta a fazer um filme tão conservador que chega a irritar. Não conservador necessariamente pela história que está contando, mas pela maneira como decide contá-la. Tudo precisa ser explicado, verbalizado e reafirmado, tudo parece ser ele jogando no seguro. Os personagens falam como se estivessem narrando para o espectador aquilo que acabamos de ver, e algumas conversas parecem ter saído diretamente dos piores diálogos de uma série genérica da Netflix.
O mais frustrante é que Scott claramente sabe filmar esse mundo. Os primeiros cinco minutos, quando é basicamente Elordi andando de avião com o cachorro e uma boa música de fundo, são muito legais. Existe uma sensação de solidão ali que funciona justamente porque ninguém precisa ficar explicando o que aconteceu com o mundo. É só um homem, um cachorro, um avião e um cenário gigantesco onde quase não existe mais ninguém. Depois disso, o filme começa a falar demais e mostrar de menos.

Jacob Elordi segura bem o protagonista, principalmente porque Hig é um personagem que poderia facilmente virar apenas mais um sobrevivente traumatizado de filme pós-apocalíptico. Margaret Qualley também está bem, e talvez seja uma das poucas pessoas capazes de colocar alguma humanidade nas cenas mais expositivas do roteiro. O problema é que os personagens são frequentemente tratados mais como peças necessárias para a história do que como pessoas que realmente parecem existir naquele mundo.
Já Josh Brolin, por outro lado, parece ter entendido perfeitamente o tipo de filme em que está. Bangley é basicamente um homem que resolve qualquer problema apontando uma arma para ele, e Brolin consegue transformar esse sujeito em algo mais divertido do que o roteiro merece. Existe uma energia quase de faroeste na relação dele com Hig, principalmente porque os dois representam maneiras completamente diferentes de enxergar aquele mundo: um ainda procura alguma coisa para viver, enquanto o outro parece ter aceitado que sobreviver já é suficiente.
Mas temos pelo menos alguns vislumbres em duas cenas do bom diretor de ação que Ridley Scott é. Temos uma sequência envolvendo o personagem do Brolin que é excelente, a violência é seca, o espaço é bem utilizado e existe tensão, o que desaparece completamente quando os personagens voltam a explicar seus sentimentos em diálogos cansativos.

A outra grande cena, envolve a personagem de Allison Janney. Ela aparece em um momento que poderia facilmente ser apenas uma participação de um elenco gigantesco, mas a sequência aproveita muito bem a presença dela e entrega uma das poucas situações em que o filme realmente consegue surpreender. É engraçado pensar que, entre quase duas horas de filme, são justamente essas duas cenas de ação que mais ficam na cabeça.
Porque, no resto, Ponto Sem Retorno parece estar constantemente com medo de deixar o espectador sozinho. A cada momento em que a imagem poderia falar alguma coisa, alguém precisa explicar. A cada silêncio que poderia construir uma relação entre os personagens, entra um diálogo. A cada possibilidade de simplesmente observar aquele mundo, o roteiro lembra que precisa avançar para a próxima informação. É um filme sobre solidão que tem pouquíssima confiança no silêncio.
E isso também faz com que a própria ideia de esperança fique muito mais óbvia do que deveria. A transmissão de rádio funciona como um símbolo bastante interessante, porque é uma voz surgindo no meio de um mundo onde quase todas as vozes desapareceram. O problema é que o filme parece não confiar que a gente entendeu isso e passa boa parte do tempo transformando a metáfora em explicação.
No fim, Ponto Sem Retorno não é exatamente um desastre. Tem Jacob Elordi, Margaret Qualley e Guy Pearce bem, Josh Brolin se divertindo, duas cenas de ação realmente boas e algumas boas intenções. Mas também é um filme extremamente genérico, expositivo a ponto de parecer uma produção caríssima feita para preencher catálogo de streaming e completamente desprovido da emoção que sua própria história parece estar desesperadamente tentando alcançar, um filme de cachorro que não emociona, é um filme falho.
Mas toca Hozier, né. Eu gosto.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.