O início de ano, da temporada de premiações, é um período em geral bem antecipado pela maioria dos cinéfilos. Durante a faculdade era, de fato, um momento de muita atenção da parte dos alunos e professores. No decorrer dessa década, contudo, infelizmente se tornou uma série de desgostos para este redator. De longe é a época na qual assisto os piores filmes que verei em todo o ano, o diário do Letterboxd comprova. Chega uma etapa da vida onde você se conhece, assim como a indústria cinematográfica, e encontra a capacidade de discernir habilmente o que será ou não de seu interesse, com este primeiro longa de Mary Bronstein em 17 anos encontrando-se no limiar da segunda. À exceção do título, e o alvoroço ao redor da atuação de Rose Byrne, havia pouco exercendo uma força de atração, até que um dos meus YouTubers favoritos declarou “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” como seu filme preferido de 2025. É raro meu gosto se alinhar ao de Mike Stoklasa, do canal RedLetterMedia, mas foi o suficiente para atiçar a curiosidade. Consigo ser franco e admitir que o longa exerce com primor a maioria do que almejava, todavia nada que cative, prenda a atenção, ou não tenha visto melhor executado em outro lugar.
Acompanhamos a vida (bem m#rd@) de Linda, uma psicóloga interpretada por Byrne, enquanto ela cuida sozinha de sua filha doente, que nunca vemos em câmera. As duas são forçadas a residir num motel após o teto de seu apartamento se romper, criando um enorme buraco, e inundando o local. Situações e personagens surgem e desenrolam no decorrer da narrativa, gerando ansiedade e estresse, um estilo de cinema caracterizado nos últimos anos pela filmografia dos irmãos Safdie (um deles produtor do longa), porém mal atingindo a superfície do frenesi que esta abordagem é capaz de trazer. As comparações com “Bom Comportamento” e “Joias Brutas” existem a tempos, e onde estes encontram êxito é nos problemas partindo de algo crível, pé-no-chão, e sendo desenvolvidos por esse ângulo. Aqui tantos personagens são tão rudes a um nível cartunesco, transparecendo mais uma implicância irreal do que algo possível de se relacionar. Uma balconista se recusar a vender álcool por burocracia, um guarda de estacionamento impedindo de ficar no seu carro, a médica da filha insanamente apática a um ponto de falta de profissionalismo, simplesmente nada que aconteceria a qualquer um, o que jamais seria problema se houvesse enfoque nos arredores de Linda e, quem sabe, criar a ideia de que este não é o nosso mundo. Ainda assim, há jeitos mais orgânicos de transparecer essa grosseria, presente em dois personagens do longa, os verdadeiros MVPs.

Conan O’Brien e ASAP Rocky são os únicos presentes no longa com todos os motivos para serem babacas, ainda assim revelando-se os personagens mais sãos. O primeiro, um excelente comediante do qual sou um leve fã, tem o papel do terapeuta de Linda, também seu colega de trabalho visivelmente forçado a este relacionamento, o único que a protagonista valoriza, mesmo que ela nunca siga nada do que ele aconselhe, dando razão à sua grosseria. O único porém se dá num capítulo da película, quando um bebê é abandonado no escritório por uma paciente e ele se recusa a ajudar Linda… mas assim… se isso acontecer a criança é responsabilidade de todos no local, não posso definir o quanto um evento como esse pararia o consultório da minha terapeuta. Por essas e outras que recepcionistas são essenciais! Quanto ao segundo, o rapper interpreta James, o superintendente do motel, que trata Linda com decência e educação apesar das diversas patadas, até um ponto onde ele se torna vítima de um sério acidente, pelo qual ela é responsável. Portanto, quando ambos eventualmente a destratam, é o único vislumbre de uma catarse a ser encontrada, afinal, dizem o que nós estávamos pensando todo o tempo.
A protagonista Linda é uma personagem fácil de criar empatia, mas impossível de encontrar simpatia. Byrne inegavelmente é estupenda no papel, o que falta é roteiro e direção. Nos últimos anos houveram tantos filmes “estudo de personagem”, mas mal parece que estamos realmente aprendendo algo sobre eles ou perto de entender a fundo sua perspectiva de vida. Linda não tem nenhuma, sem dúvida a intenção, mas… e aí? Sim, ela vê sua filha como um peso a ser carregado, um ser indefinido que ela não consegue olhar (portanto nós não a vemos), mas todo seu arco se resume aos outros, e nada sobre si mesma. É algo trágico e característico tanto da maternidade quanto de conflitos psicológicos, acabar como a coadjuvante da própria história, mas assim não se sustenta protagonismo, muito menos uma sessão de terapia. Linda sente-se impotente sobre todo aspecto de sua existência, daí a metáfora do título, ela reagiria, se ergueria, se soubesse como, sem forças de encontrar a resposta. Um elemento fácil de desgastar tão passiva personagem ao público, e problematizar o longa, refere-se a filha doente. Formular um recorte alternativo do texto onde a menina é saudável existe sem afetar o tema principal, diante disso uma leitura amoral da mensagem torna-se mais concreta, de crianças com graves doenças serem um fardo, desestabilizando e simplificando o que poderia ser uma discussão de maternidade em contraponto, por exemplo, a “Eraserhead” de David Lynch, e seus temas paternais.

Com a menção dada ao caríssimo mestre do neo-surrealismo americano, podemos abordar a linguagem de Mary Bronstein. Existem diversos momentos oníricos, porém fáceis de serem “racionalizados”, Linda está frequentemente bêbada e chapada, tornando alucinações propícias, e há uma cena de meditação guiada, que pode levar a sonhos lúcidos. A breve abordagem surrealista falha em enraizar-se em nossas mentes por ser tão solta em relação ao todo, e simples demais para instigar novas sensações. Um ângulo que fortemente faz o surreal engajar é a criação de grandes incógnitas que perdem seu tamanho numa resposta, enquanto aqui é um filtro, não restando dúvidas nem questionamentos, um estímulo nulo. A estética do filme é adequada, muito reconfortante ver desenho de luz tão evidente, o fluxo da edição enfatiza o tom frenético que a realizadora quer passar, o ponto crítico acaba por ser a ênfase em close-ups, tanto para mascarar a presença da filha em suas cenas, quanto para transparecer a intimidade ansiosa idealizada, acabando por ser uma artimanha que envelhece muito rápido, limitante do potencial imagético, afinal diversos quadros parecem repetitivos, perdendo frescor a cada minuto, além de destoarem demasiadamente dos quadros mais abertos em outros pontos do longa.
Onde há uma mira em ansiedade e desconforto, o adquirido é irritação; Quando há a evidência de querer mergulhar fundo na mente de sua protagonista, superficialidade é o resultado; Na intenção de criar um mundo surreal, temos apenas o concreto. Sem dúvida essas dualidades fazem parte da mensagem de Mary Bronstein, afinal o cerne do arco trata-se de uma contradição, uma mãe que perdeu a capacidade de amar sua filha, e há pessoas a quem esse desequilíbrio funcionará como linguagem. E existem aquelas com pernas, que as usarão para chutar o filme para o mais longe possível. Diferente da protagonista, muitos de nós sabemos exatamente como reagir.

Formado em Cinema e Audiovisual, aspirante a aspirante a cineasta, romântico caiçara, rato de academia, não fundou a Toca, assiste todo tipo de cinema, contanto que lhe interesse.
