“Paisagem não é fotografia, fotografia é desenho de luz.” – Maurílio dos Anjos
Meses atrás, quando cinéfilos da internet faziam suas apostas para os indicados ao Oscar, muitos ignoraram “Sonhos de Trem”, não quem vos escreve. Houve um instinto primitivo afirmando-me que o longa de Clint Bentley receberia umas seis indicações, incluindo Melhor Filme, e assim fui capaz de acertar as eventuais quatro recebidas. Entretanto não existia um resquício de esperança de uma obra que conversaria comigo, só um reconhecimento de uma cobertura poética-naturalista sobre uma superfície oca, a Academia adora. Eles nunca reconheceram Malick ou Tarkovsky, mas quando um qualquer porcamente evoca o Cinema deles… OSCAR! Esta talvez seja até agora minha crítica mais desafiadora… pela falta do que falar, afinal “Sonhos de Trem” não apresenta nada.
A trama, se possível definir assim, acompanha a vida de Robert Grainier (Joel Edgerton). Isso é tudo, tchau. Há grandes, e grandemente interessantes, filmes sobre nada, o famoso “tinta secando”, eles muitas vezes nos permitem e nos convidam a preencher lacunas, de gestos, ações, olhares, personalidades, similar a interpretar uma pintura. A sua visão sobre o quadro diz mais sobre você mesmo que a obra em si. Qualquer exercício como esse é impossibilitado pelo profundamente distrativo, e quase hilário, trabalho de narração, invadindo diversos momentos, literalmente nos comunicando o que personagens sentem e o que algo ou alguém significa a um personagem. Tarkovsky e especialmente Malick colocavam narrações em seus projetos, contudo elas essencialmente tornavam tudo mais enigmático, pois tratavam-se de poesia legítima, enquanto aqui parecem passagens do audiobook copiadas e coladas na linha do tempo do Adobe Premiere. A chance de impormos nosso próprio significado ao vazio é erradicada quando os cineastas dizem no próprio filme o que tudo é, tornando a experiência oca.
Certo, você massacrou o potencial temático e a confiança de sua obra, tanto no público quanto em si mesmo, pelo menos você pode falar que tem imagens bonitas em tela… ou será que não? Existem de fato alguns belos quadros no decorrer do caminho, só que ao gravar durante a “hora dourada” (amanhecer e pôr-do-sol) em florestas e campos, o verdadeiro desafio é tirar uma foto feia… e acredite, parece que tentaram mesmo fazê-lo. Perceptivelmente filmado com luz natural em 99% das cenas, acaba por ser o calcanhar de Aquiles da peça, em diversos momentos a face dos atores acaba dominada por sombras, removendo um elemento performático crucial. Há também o ocasional uso de lentes grande-angulares, idealizado para aumentar o escopo do ambiente, mas gerando uma distorção que combate o almejado naturalismo. Porém a tática de cinematografia mais irritante aqui presente é o uso de zoom-ins e zoom-outs, transformando quadros de primeiro plano em planos gerais, e vice-versa, repetidos à exaustão e estendidos a níveis dignos de sátira. Numa das primeiras cenas de Kerry Condon, em uma deveras inútil personagem, transicionamos lentamente de um ângulo aberto até o absoluto centro de seu rosto, dominando a tela inteira, e não há nada particularmente forte ou íntimo sobre o diálogo e a natureza do momento que justifique tão grande foco em seu rosto. Eventualmente quando chegamos em algo particular sobre ela, é gravado em planos gerais.

Depois de tudo dar errado no planejamento e na execução, sempre há o resgate da edição, como dizíamos na faculdade: “resolve na pós”. Existem montadores que historicamente salvaram seus filmes, mais notoriamente Marcia Lucas no primeiro “Star Wars”. Parker Laramie infelizmente não deu conta dessa missão. Longe de ser o alvo de culpa, o ritmo da narrativa é tão acelerado que mal um evento é processado já pulamos a outro, uma escolha bastante dissonante da abordagem mais meditativa desse tipo de ambientação e estética, e a passagem de tempo decorrido através de anos nunca é transmitida de forma efetiva sem a muleta da narração, tornando toda a jornada em confusão, uma palavra perfeita a definir a mise-en-scene apresentada por Bentley. Em “Sonhos de Trem” existe uma visão, mas que utiliza de táticas totalmente discordantes uma da outra para apresentá-la. Até mesmo a filmagem digital se destoa, mesmo partindo de uma escolha de orçamento necessária, há um clamor gritante por película nessa história, pois com um foco tão grande no naturalismo, uma câmera analógica seria bem-vinda. Uma redenção limitada, mesmo que um bom começo.
Apesar de todas as disparidades técnicas e temáticas, o equilíbrio encontra-se nos atores, mesmo a serviço de tão pouco. Edgerton exala o peso, o isolamento e a perdição de seu protagonista, mesmo que o narrador conte até demais do invisível e do óbvio, a característica de um homem tímido de poucas palavras encontrando uma vida melhor que ele crê merecer é potente, uma que ele soube trazer por diversos papéis de sua carreira. Felicity Jones, que interpreta Gladys, a esposa, transparece aquele poder único de uma pessoa especial, uma gentileza genuína, através de seus olhares e toques. A presença de atores coadjuvantes como William H. Macy e a mencionada Kerry Condon, não atingem um resultado marcante, devendo-se mais ao material e a forma como são utilizados, do que por seu trabalho em si, no fim das contas vemos e sabemos muito pouco deles, a não ser pelo narrador de Will Patton – beirando uma paródia séria do estilo de Wes Anderson.
Quem dera poder afirmar que a decepção partiu de uma (verdadeira) escassez de sonhos sobre trens, contudo ela parte de algo mais profundo, e simultaneamente básico, sobre a sétima arte. Quando aspectos técnicos não se fundem, e nossa capacidade de inferir sobre os personagens é removida, não há como, nem o quê, sentir, e tratando de temas como a relação humana com a natureza e o tempo, assuntos universais, a última sensação resultante deveria ser indiferença e vazio.
“Ó o trem, isso aí é poesia. Quando o filme tem poesia tem trem.” – Renan de Almeida

Formado em Cinema e Audiovisual, aspirante a aspirante a cineasta, romântico caiçara, rato de academia, não fundou a Toca, assiste todo tipo de cinema, contanto que lhe interesse.
