Chega a ser curioso como A Colega Perfeita aborda rapidamente em determinado momento uma discussão sobre nepobabies enquanto, ao mesmo tempo, é atravessado por ela em sua própria escalação. Sadie Sandler assume o centro da narrativa, cercada por nomes que também carregam sobrenomes pesados como Francesca Scorsese e Bella Murphy. Não chega a ser um problema em si, mas é algo interessante de se observar. Um filme sobre pertencimento, aceitação e espaços sociais que, fora da tela, já parte de um lugar de privilégio bastante evidente.

A premissa é simples e eficiente, como um arroz com feijão. Devon (Sadie Sandler), uma caloura universitária ingênua, toma uma decisão que parece pequena, mas carrega um desejo enorme de reinvenção: dividir quarto com a jovem Celeste (Chloe East), figura popular, segura e socialmente muito confortável. O encontro entre essas duas presenças organiza o filme desde o início. Existe uma familiaridade nesse tipo de história, entre a boazinha e a moralmente questionável que parece super agradável à primeira vista, mas também um potencial interessante na forma como essas dinâmicas de convivência forçada expõem fragilidades que normalmente ficam bem escondidas.
O que começa como uma amizade promissora vai sendo lentamente contaminado por pequenas disputas, ressentimentos nunca discutidos entre elas e jogos de poder quase invisíveis. O filme acerta ao não transformar isso em um conflito explosivo imediato. Existe algo mais incômodo na maneira como essas tensões se acumulam em pequenos gestos, olhares, comentários ambíguos feitos de forma indireta. É uma agressividade que raramente se assume como tal, mas que desgasta de forma constante os dois lados.
Sadie Sandler funciona melhor justamente nesses momentos de desconforto. Há uma tentativa clara de construir uma personagem que oscila entre o desejo de aceitação e uma certa ingenuidade que beira a auto sabotagem, mas ao mesmo tempo, ela não é aquela típica personagem boazinha, pelo contrário, parece possuir uma clara inspiração na Cady de Meninas Malvadas. Nem sempre o filme aprofunda isso o suficiente, mas existe uma entrega honesta na forma como Devon reage ao ambiente ao seu redor. Já Chloe East encontra mais espaço para trabalhar nuances em Celeste, que nunca se reduz completamente a um arquétipo simples de “garota popular”, ela é maliciosa, meio sádica e completamente instável.

Talvez o aspecto mais interessante de A Colega Perfeita esteja menos na trama em si e mais na sensação de reconhecimento que ela provoca. A universidade como espaço de reinvenção pessoal, onde cada escolha parece definitiva demais, cria um terreno fértil para esse tipo de conflito tão comum no cinema (ou aqui, em streaming). O filme entende esse ambiente, ainda que nem sempre saiba o que fazer de mais profundo com ele. Quando tudo toma uma proporção maior, ele acaba.
Há também um mérito em como o filme entende a crueldade social contemporânea como algo menos escancarado e mais performático. Ninguém precisa gritar para ferir alguém quando se domina a “arte” da exclusão elegante, da ironia dita sorrindo, da humilhação embalada como brincadeira, de usurpar o espaço que pertencia a outra pessoa – até mesmo em dinâmicas familiares. A Colega Perfeita observa bem esse tipo de comportamento, especialmente entre jovens que aprenderam a transformar insegurança em persona e os coloca em posição de julgamento.
Em determinado momento, porém, a narrativa abandona parte dessa sutileza inicial e assume uma identidade mais escrachada. O que antes era feito de olhares e pequenas manipulações entre as personagens passa a ganhar proporções maiores, decisões impulsivas e conflitos mais explícitos, o que é legal. É uma virada que pode soar brusca, mas conversa com a lógica emocional dessas relações, onde tensões reprimidas costumam explodir de maneira desproporcional.

Em alguns momentos, o filme ainda flerta com algo mais ácido, como uma sátira sobre status, imagem e a necessidade constante de parecer desejável dentro de qualquer grupo. Falta talvez coragem para mergulhar de vez nisso. O roteiro frequentemente encosta em temas interessantes e recua para manter tudo leve, ágil e consumível. Funciona como entretenimento rápido, mas deixa a impressão de que poderia ser mais venenoso e memorável se arriscasse um pouco além.
Também existe um charme específico no fato de ser um filme consciente de sua proposta. Nem toda história precisa se vender como grande comentário geracional. Às vezes basta entender bem suas pequenas guerras emocionais e conduzi-las com ritmo. A Colega Perfeita encontra alguma graça justamente nesse lugar intermediário: não é profundo o bastante para marcar, nem descartável o bastante para sumir, e é mais uma vez o recado de que parece estar chegando a vez das filhas de Adam Sandler brilharem, e da hora do pai descansar (que venha Gente Grande 3 antes).

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.