Meninas Malvadas (2024) o barro segue acontecendo

Originalmente o texto foi publicado na página do Instagram da Toca Cinéfila no dia 11/01/2024. A base do texto ainda é a mesma, apenas revisitando alguns pontos.

Dois anos depois ainda é curioso perceber como o magnetismo que vem do olhar de Renée Rapp no exato momento em que ela surge em cena – falando sobre o quão incrível ela é – continua sendo um dos pontos altos da versão musical de Meninas Malvadas. Revendo o filme (e relendo o que escrevi na época), fica ainda mais claro como ele entende a força de suas imagens e personagens. Mais do que me conquistar pelo impacto imediato, o longa reforça como é, sim, possível atualizar uma história mantendo intacta a essência que a tornou tão querida, ao mesmo tempo em que a reposiciona para um público novo, mais atento às dinâmicas de poder, imagem e discurso.

Aqui, a jovem Cady (Angourie Rice) é criada apenas pela mãe (Jenna Fischer, a eterna Pam de The Office) no Quênia e, após certo tempo, as duas se mudam para os Estados Unidos para que a filha tenha uma educação mais tradicional no ensino médio. É nesse deslocamento que nasce o conflito central: Cady entra em um ecossistema social completamente diferente, aprendendo suas regras com a ajuda de Janis e Damian (Auli’i Cravalho e Jaquel Spivey), que apresentam o colégio como aquilo que ele de fato é – um território selvagem, hierárquico e cruel. Logo, ela se depara com o grupo das patricinhas, The Plastics: a aparentemente doce e cheia de segredos Gretchen (Bebe Wood), a linda e alheia Karen (Avantika Vandanapu) e, no topo da cadeia alimentar, a abelha-rainha Regina George (Renée Rapp).

A Regina de Renée é extremamente imponente, sexy e controladora. Sua maldade não é explosiva, mas muito meticulosa; sua sensualidade está menos no corpo e mais no olhar, sempre consciente do efeito que causa nas outras pessoas. Em uma comparação inevitável com a versão de Rachel McAdams, elas funcionam em níveis muito próximos, mas por caminhos distintos: se em 2004 o deboche parecia a principal arma, aqui o que predomina é a malícia da personagem, uma crueldade exercida como estratégia. O timing cômico de Renée é afiadíssimo, e há uma piada já próxima do final que fez o cinema inteiro – completamente lotado, em uma pré-estreia numa quarta-feira, com a maioria do público vestindo rosa – gargalhar de forma quase coletiva, e revisitando, ainda é super engraçada.

Ainda assim, quem rouba a cena acima de todo mundo é Avantika como Karen. Sua personagem é ainda mais icônica e engraçada do que a versão (perfeita) de Amanda Seyfried, funcionando como um comentário muito válido sobre ingenuidade e alienação dentro daquele microcosmo. Ela protagoniza a melhor música do filme, sobre paz mundial (Imagine, de John Lennon, finalmente encontrou sua substituta), além de carregar uma das piadas mais engraçadas durante o momento de desabafo coletivo das mulheres. Vale também destacar como Janis se torna uma personagem mais interessante nesta versão: seu lado artístico é melhor explorado, sua postura é mais afirmativa, e Auli’i Cravalho, especialmente nos números musicais, entrega um espetáculo à parte.

E por falar em piadas, o humor ácido que sempre definiu Meninas Malvadas permanece intacto, muitas vezes indo por um caminho ainda mais escrachado justamente por se tratar de um musical. E justamente o exagero é um grande trunfo: tudo é grande demais porque as emoções adolescentes também são. O filme não demonstra medo de soar errado, brega ou absurdo, ele se alimenta disso. É um excesso consciente, que transforma o ridículo em ferramenta e o constrangimento em comentário social.

Gosto muito de como o enquadramento muda conforme as músicas se desenrolam. Mesmo que nem todas sejam memoráveis, nenhuma parece interromper a narrativa. Pelo contrário: elas funcionam como momentos em que os personagens deixam de disfarçar suas intenções. Tudo é cantado porque tudo ali é performance: status, popularidade, desejo e dominação.

Se toda a essência se mantém e as piadas são habilmente atualizadas, mais uma vez sob a caneta de Tina Fey, nem tudo são flores. A versão de Angourie Rice da Cady não possui o mesmo charme de Lindsay Lohan, e o filme acaba se tornando um daqueles casos em que os coadjuvantes são mais interessantes do que a protagonista. Ainda assim, sua trajetória segue interessante, pois é justamente a de alguém que observa, copia e, pouco a pouco, internaliza as mesmas lógicas de poder que dizia criticar.

Há algo de interessante na forma como o filme abraça a transformação de Cady em uma canalha. O que começa como adaptação vira prazer, e o que parecia estratégia vira identidade. Cady não apenas aprende a jogar o jogo; ela passa a gostar de humilhar, manipular e ocupar espaços à custa dos outros. O filme entende que esse processo não acontece de forma abrupta, mas por pequenas concessões morais, cada uma aparentemente inofensiva. Tornar-se essa pessoa, aqui, não é um desvio de caráter repentino, mas o resultado lógico de um sistema que recompensa a crueldade performada e pune qualquer sinal de fragilidade.

É nesse ponto que o filme se torna o que faz Meninas Malvadas se destacar tanto: quando Cady deixa de ser apenas vítima ou infiltrada e passa a se tornar o mal em si. Sua ascensão não acontece por acaso, mas pelo domínio das mesmas ferramentas de manipulação, exclusão e controle simbólico que Regina sempre utilizou. O jogo de poder é cíclico, afinal, derrubar a rainha não significa destruir o sistema, apenas assumir seu trono. É quase um Game of Thrones musical ambientado em um colégio, só que muito mais consciente do que a própria série em seus últimos anos.

Ainda assim, o filme opta por verbalizar demais esse processo no final, e esse didatismo soa preguiçoso. A lição já estava encenada; explicá-la em voz alta parece um excesso desnecessário.

Mas, no fundo, o saldo segue extremamente positivo. Uma Cady levemente menos interessante e um final mais certinho do que o necessário não comprometem a experiência, especialmente porque toda a jornada é prazerosa de acompanhar. As quase duas horas passam voando, como se o filme começasse e terminasse em um piscar de olhos.

Existem pequenos presentes espalhados aqui e ali para os fãs do filme de 2004, como a participação da Lindsay Lohan que é puramente pela nostalgia, mas o musical de Meninas Malvadas se sustenta plenamente por si só. Com atuações excelentes, personagens ganhando novas camadas e um entendimento afiado sobre poder, performance e crueldade social, o filme continua extremamente engraçado, assumidamente brega e, sim, ainda faz o barro acontecer.

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