Fazer um filme sobre Michael Jackson possui um peso muito diferente. Não apenas pelo tamanho de sua figura pública, mas porque quase ninguém ocupou um espaço tão absoluto no imaginário popular. Michael não foi somente um artista de sucesso, ele foi o maior dos artistas. Sua voz, seus passos, seus gestos e até seus silêncios atravessaram gerações de um jeito que nenhum outro nome conseguiu. Levar isso ao cinema exige mais do que reconstituir fatos conhecidos. Exige encarar a distância entre o homem e o mito, entre a criança moldada pela indústria e o fenômeno que o mundo consumiu como espetáculo, mas não necessariamente isso acontece aqui em Michael.

O recorte escolhido, acompanhando o início da trajetória na banda de irmãos The Jackson 5 até a largada da Bad Tour em 1988, faz sentido por concentrar justamente o período em que Michael deixa de ser promessa e se transforma em algo maior que qualquer definição comum de estrelato. Há algo de muito fascinante em observar essa ascensão sabendo onde ela vai chegar. Não existem spoilers nessa trajetória, pois todos conhecem sua história. Cada ensaio, cada gravação, cada conflito familiar parece contaminado pela noção de destino. O filme entende isso e encontra força quando percebe que contar Michael é contar mais do que a história de um homem, é sobre a fabricação de uma lenda, especialmente nas atuações e na clara paixão pelo astro presente em todos os envolvidos.
Também me chamou atenção de maneira positiva como a narrativa não suaviza Joe Jackson. Interpretado por Colman Domingo, ele surge como presença opressora, dessas que moldam uma vida inteira mesmo quando não estão em cena, afinal, pais. O filme não tenta transformar violência em disciplina inspiradora, nem romantizar “métodos abusivos de aperfeiçoamento” dos filhos em nome do sucesso posterior. Existe uma lucidez importante em reconhecer que parte daquela excelência artística nasceu dentro de um ambiente de medo e cobrança constante. Isso não engrandece ninguém, apenas torna tudo mais triste.
E apesar disso, não se trata de um filme pesado – e não combinaria com o tom de ode ao Michael Jackson aqui proposta, o que não é por si só, um problema, é bonito também valorizar e acreditar que pessoas possam sim ser boas.

Jaafar Jackson impressiona fisicamente. Seu corpo fala antes de qualquer diálogo. A forma como dança, ocupa o palco e reproduz pequenos gestos de Michael cria uma ilusão convincente, quase inquietante em certos instantes, conforme o filme avança, parece que ele fica cada vez mais próximo do verdadeiro Michael. Ainda assim, falta um pouco de profundidade dramática para além de sua superfície de entrega magnética. Ele convence como imagem, menos como interioridade. Vemos o ícone nascer, mas nem sempre sentimos a pessoa respirando por trás dele, e isso se deve muito às escolhas narrativas do diretor Antoine Fuqua.
Talvez o maior problema esteja na estrutura. Em vários trechos, o longa se comporta mais como uma coletânea de músicas costurada por cenas intermediárias do que como um filme em si. Lembrei de Bohemian Rhapsody nesse impulso de transformar os hits de uma carreira em uma espécie de checkpoint no filme, embora aqui exista mais cuidado nas atuações e uma montagem consideravelmente mais fluida, sem aqueles picotes que tanto ofendem a internet de Bohemian. O filme avança bem, entretém, sabe usar o apelo das canções, mas muitas vezes prefere celebrar momentos já conhecidos sem trazer nada de novo a eles, colocar para assistir novamente seus clipes tem mais peso.
E existe algo curioso nisso. Um artista tão complexo recebe um filme que frequentemente escolhe o caminho mais seguro. Talvez porque Michael assuste qualquer tentativa de síntese. Como resumir alguém que foi genial, ferido, contraditório e irrepetível sem cair na simplificação? O longa toca nessa dificuldade sem realmente enfrentá-la. Sai de cena competente, por vezes envolvente, ocasionalmente emocionante, mas sempre com a sensação de que observamos apenas a vitrine de uma figura imensa, que tem muito em sua loja para apresentar, o que não vemos.

Ainda assim, seria injusto negar o efeito que algumas sequências provocam. Quando o filme abandona a obrigação de resumir uma vida e simplesmente observa Michael criando, ensaiando ou ocupando o palco (seja ele uma palco mesmo ou um conflito de gangues resolvido com música), algo se reorganiza e o filme simplesmente funciona. Nesses momentos, entende-se por que ele se tornou quem se tornou. Há um magnetismo que nenhuma análise racional explica por completo. Certas presenças parecem nascer prontas para serem vistas, e Michael carregava isso em si.
Também existe valor em revisitar essa trajetória por uma lente assumidamente admiradora. Mesmo quando simplifica conflitos ou acelera passagens importantes, o longa preserva a dimensão inspiradora de alguém que saiu de um ambiente duro para reinventar a música pop em escala mundial. Talvez falte complexidade, mas sobra afeto. E entre tantos filmes biográficos cínicos ou burocráticos, há algo sincero em assistir uma obra que genuinamente gosta de seu personagem.
Ao mesmo tempo, essa reverência impõe limites claros. Quanto mais o filme se dedica a confirmar a grandeza já conhecida, menos espaço encontra para investigar as fissuras que tornariam essa jornada mais humana e menos monumental. Michael foi grande justamente porque parecia impossível, mas o homem por trás dessa impossibilidade talvez fosse a parte mais interessante de se filmar.
Sabendo que haverá continuação, fica a sensação de estarmos diante de uma primeira metade que prepara terreno mais do que se completa. Faz sentido encerrar antes de fases ainda mais turbulentas e contraditórias, onde a figura pública se tornaria ainda mais fascinante e difícil de decifrar. Se este capítulo funciona como introdução competente, o próximo terá a tarefa realmente desafiadora: sair da celebração e encarar um lado mais profundo e sombrio de quem foi Michael Jackson.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.