Os Infiltrados (2006) o oscar de martin scorsese

Sinopse: Para derrubar a máfia irlandesa do sul de Boston, a polícia envia um dos seus para infiltrar-se no submundo, sem perceber que seus rivais fizeram o mesmo. Enquanto um agente disfarçado tenta ganhar a confiança do chefão, um criminoso ascende na hierarquia policial. Mas ambos os lados logo descobrem haver um rato entre eles.

Nos confins longínquos de meu terceiro ano de faculdade, ao antecipar avidamente “O Irlandês” do mestre Scorsese, passei a explorar mais a fundo a filmografia do renomado cineasta, também em honra a um dos meus melhores amigos. Dentre o que foi assistido nesta febre, havia “Cabo do Medo”, “A Época da Inocência”, clássicos como “Os Bons Companheiros” e “O Rei da Comédia”, e entre eles, “Os Infiltrados” – o ocasional filme favorito de Lucas Ribeiro, aniversariante deste 24 de abril. Existem sim, infelizmente, alguns longas que perdem sua força com o tempo, afinal a primeira experiência de contemplar este aqui é visceral, frenética e carregada de suspense, beirando ao impossível não dar 5 estrelas e declarar o melhor do homem. Com o tempo, a energia diminui um pouco, algumas feridas se expõe, assim como a curiosidade em ver se os fãs do original honconguês “Conflitos Internos” tem sua razão, porém o elo formado com o projeto e o impacto particular são inegáveis, afinal este é um daqueles “filmes formadores” pra muita gente, e a gratidão pela existência de um desses, ainda mais “tão perto de casa”, torna impossível qualquer indiferença.

Encontrar um ângulo a escrever sobre este clássico moderno prova-se um tanto difícil, pois tudo que já redigi sobre na vida continha uma enxurrada de palavrões no contexto mais positivo possível, que curiosamente demonstra em si o quanto fui afetado pela mise-en-scene orquestrada, pois é um filme vulgar no sentido mais literal. Uma evidente atmosfera de sujeira permeia, carregada além da forte violência presente, mas pelo linguajar proferido por todo o elenco e uma natureza confrontacional que têm um com o outro. Há pouca confiança a ser encontrada nessa narrativa, são uma série de facadas nas costas umas atrás das outras envoltas em tretas do núcleo cômico da novela das nove, porém aqui é o Mark Wahlberg surrando pessoas do nada. Por mais intenso que tudo seja, uma hora bate a compreensão que “Os Infiltrados” é muito engraçado, apenas aumentando o suspense e a animosidade entre os personagens. Há um terror em uma cena onde Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) encontra Frank Costello (Jack Nicholson), no apartamento deste, durante uma refeição, segurando a ensanguentada mão mutilada de sua última vítima, mas a natureza casual do mafioso é tanta que seu senso de humor maligno domina por completo cada segundo de sua presença.

Uma ambivalência de tons como esta poderia, em uma lente mais amadora, gerar uma crise de identidade, entretanto aqui é o cerne diferencial, e acima de tudo, o tema principal. Há tantos personagens soterrados nas próprias mentiras que esquecem seu eu verdadeiro, fingindo ser alguém sem nunca se tornar a pessoa esperada, mascarando anseios enrustidos presentes em subtexto, transparecendo ser algo para revelar-se como o oposto, ou tendo uma narrativa forçada sobre si por terceiros em retaliação. Evitando os spoilers, na grande corrente de óbitos formada por essas duas horas e meia, apenas aqueles que entendem a própria natureza e a alheia permanecem vivos. Os ingênuos são devorados pelos lobos, porém até estes mentem para si mesmos. Nesta correria é onde o fluxo da edição de Thelma Schoonmaker, parceira criativa de longa data do mestre, brilha na metalinguagem, com cortes afiados, bruscos, súbitos como uma bala, em parceria com os enervantes movimentos de câmera, enaltecendo a linguagem cinematográfica de perigo constante, e o esporádico uso de iluminações dramáticas beirando ao irreal, trazendo as emoções privadas de seus personagens à superfície.

Entrando em alguns méritos do elenco, composto por grandes medalhões de Hollywood, elevando esta fluidez engajante, com cada expressão e fala tendo seu impacto emocional assim como humorístico. Enquanto DiCaprio e Matt Damon passam o filme caçando um ao outro e sobrevivendo na hostilidade, espelhando suas trajetórias ao ponto de se apaixonarem pela mesma mulher, temos o vilão de Jack Nicholson roubando toda cena com suas improvisações geniais que geraram diversas histórias, além de engrandecer o personagem. O que há de mais divertido em “Os Infiltrados” está no conhecimento do backstage, partindo quase de um apreço de tiozão contando sobre os bons tempos de antigamente, algo que define e muito o que é ser fã de artistas como Scorsese e outras lendas da geração Nova Hollywood. Àquela época havia uma magia particular do Cinema e suas estrelas que vem se tornando cada vez mais rara. Quem sabe a internet tirou o mistério daquele mundo, ou expandiu o escopo do que é um ícone ao ponto de termos diversos deles, ou talvez a própria mídia artística, como diversas outras, já atingiu seu ápice e o crepúsculo se aproxima. Mas cineastas como Scorsese são os poucos remanescentes que mantêm a faísca de invenção e curiosidade viva, usando o Cinema como um compartilhamento de emoções as quais palavras não fazem jus, portanto é necessário encontrar esta linguagem alternativa para traduzi-las e entendê-las. Há entretenimento de sobra por aqui, e principalmente, o que mais falta nas produções atuais: personalidade.

Feliz aniversário, Lucas.

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