Era uma vez uma garota, de 20 anos, em seu segundo ano de faculdade. Ela decidiu postar um apelo no Twitter, perguntando quem a acompanharia para assistir ao novo filme do Pedro Almodóvar. Um garoto, de mesma idade, do terceiro ano, respondeu. A menina achou estranho pois… ela acreditava que ele tinha namorada, apesar de achá-lo… interessante. O menino na verdade era solteiro (graças a Deus!), e queria um encontro real com ela. Ambos foram juntos assistir “Dor e Glória” no cinema e… nada aconteceu por um tempo, até três meses depois, quando ele se aproxima de mim e avisa que sairá com ela para assistir “Ad Astra”, e vejo ambos cavalgarem até o pôr-do-sol perpétuo no qual se encontram até hoje. Algumas películas são importantes por fatores próprios, como neste caso, sendo minha primeira aventura no reino etéreo de Almodóvar num mundo pré-pandêmico, um cineasta cuja filmografia seria um deleite de anos a ser contemplada, tornando-se profundamente influente para a minha arte… porém esta peça é essencial pelo seu valor na vida de bons amigos.

Neste capítulo da carreira de Almodóvar acompanhamos o cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas), percorrendo por sonhos ébrios fílmicos de seu passado para anestesiar suas muitas dores, físicas e emocionais, do presente. O roteiro contém uma estrutura episódica, que é tanto seu trunfo quanto a única fraqueza. Cada etapa é necessária para o arco do protagonista, às custas de um papel coadjuvante. A narrativa se inicia com a restauração de um longa feito 32 anos antes, marcado pelas desavenças entre Salvador e seu ator principal, Alberto Crespo (Asier Etxeandia), forçando ambos a se reunirem após todo esse tempo, o que leva às tardes de heroína onde Mallo relembra sua infância. Num desses períodos, Alberto encontra um texto escrito pelo diretor, comovendo-o profundamente a querer dramatizá-lo num one man show. Durante uma das exibições, a peça chama a atenção de Federico Delgado (Leonardo Sbaraglia), ex-amante de Salvador, chutando Alberto da narrativa de imediato. Pode-se dizer que seu papel foi cumprido, porém passamos por volta de 1 hora com a dupla para uma metade ser descartada sem conclusão devida. Desta forma seu lugar na história é reduzido a apenas uma série de degraus para o próximo andar.
Contudo, a trajetória de Salvador é engajante, avivada pela sublime atuação de Antonio Banderas. Cada gesto reflete sua dor contínua, se ajoelhar para pegar algo que caiu no chão, entrar e sair de um mero carro, engasgar com a própria saliva, o entorpecimento torna-se tentação gritante, e sem dúvidas, íntima. Não é segredo que este é o mais pessoal dos filmes de Almodóvar, o peso e a nostalgia são tangíveis. Por toda sua carreira há um evidente apreço pela figura feminina, e aqui podemos ver, de certa maneira, a origem deste principal elemento de sua filmografia, pelo forte apego à sua mãe, a formação em companhia das vizinhas em ações simples como lavar roupa no rio, assim como assistimos a seu desabrochar romântico, o primeiro vislumbre de sua homossexualidade, e o padecimentos crônicos reais do autor. Há muito o que carregar por quase duas horas, e Banderas honra todos esses detalhes da vida de seu parceiro criativo por mais de três décadas.

O resultado é um tradicional conto no estilo do cineasta, das inspirações em melodramas clássicos hollywoodianos, aos seus visuais com vermelhos persistentes e “apartamentos do Pinterest”. As cores são mais frias nos dias atuais para enaltecer o calor da infância, de captar as diversas mutações que uma vida passa. É raro pensarmos num homem de 60 anos cheio de traumas e desilusões, e atrelarmos nele a imagem de um garoto começando a se conhecer melhor, pois é uma entidade separada. Mas nós mesmos, ainda enxergamos nossa criança interior no espelho, o sentir-se adulto é impossível, somente um mero transparecer, uma imposição do cenário capitalista. São poucos os filmes que conseguem gerar essa reflexão, e muito menos as vocações que precisam, às vezes, de uma infantilidade pelos adultos que as realizam. O Cinema é uma delas. “Dor e Glória” é uma meditação madura sobre o passar do tempo, mas traz consigo a energia imatura para gerar a faísca necessária.
Embora este seja um texto em homenagem ao aniversário da minha amiga, em um filme com Penélope Cruz, eu preciso dedicar um parágrafo inteiro à mulher, por menor ou mais vazio que possa ser. Poucos são os astros do cinema que, hoje em dia, ainda vivos, temos um vislumbre legítimo de estarmos diante de uma lenda eterna, que cada projeto, até os mais genéricos e corporativos, tornam-se imortalizados por sua presença. Penélope Cruz é uma das principais da lista, e suas parcerias com Pedro Almodóvar serão o ponto mais estudado de sua carreira. Em “Dor e Glória” há pouco a ela realizar, não há grandes momentos de drama e emoção, ela apenas existe, entretanto não há outra atriz que poderia estar em seu papel. Acaba por ser curiosamente similar à Sharon Tate de Margot Robbie em “Era Uma Vez em Hollywood”, uma mera presença, uma representação vívida, e nada mais é preciso. O ponto é contemplar sua existência, pois nela o diretor-autor exala amor e reverência.

Para finalizar, sinto que devo retificar minha única crítica. Não está errada, mas seu trunfo não foi elaborado. Acompanhamos sim aquelas etapas, que podem deixar um inicial co-protagonista como Alberto de escanteio, mas cada degrau leva ao arco final, que recontextualiza todo o projeto. Sem a reunião com Alberto, Salvador jamais teria usado heroína e tido seus sonhos, nem reencontraria Federico, dando-lhe a força antes ausente para superar o vício, e buscar ajuda, quando finalmente admite não ter superado a morte da mãe. Tudo isso fomenta o desejo de Salvador de realizar, enfim, seu novo filme, cujas cenas assistimos em seus devaneios entorpecidos. A arte imita a vida que imita a arte.
¡Feliz cumpleaños a mi amiga, Mari Felix! Ela é um anjo.

Formado em Cinema e Audiovisual, aspirante a aspirante a cineasta, romântico caiçara, rato de academia, não fundou a Toca, assiste todo tipo de cinema, contanto que lhe interesse.