Obsessão é uma história de amor, não um romance. Como o próprio cita através de sua protagonista logo no início.

Este novo filme é dirigido por Curry Barker, que ganhou fama principalmente no YouTube, fazendo curtas de terror e suspense com baixo orçamento, mas ideias criativas e uma produção muito acima do esperado para a internet. Seus vídeos começaram a viralizar pelo clima cinematográfico e pelo uso inteligente de efeitos práticos e da tensão psicológica. Depois, ele chamou ainda mais atenção com o longa independente Milk & Serial (2024), que explodiu online e acabou se tornando quase cult entre fãs de terror indie.
Aqui, Barker ganha seu primeiro longa com maior alcance através da Blumhouse, ainda mantendo um orçamento baixo para os padrões hollywoodianos. E ele utiliza muito bem cada centavo.
O filme conta a história de Bear, perdidamente apaixonado por sua melhor amiga, Nikki, que o vê apenas como amigo. Certo dia, ele decide comprar um brinquedo sobrenatural conhecido como “One Wish Willow”. O objeto concede um desejo ao seu portador, e Bear pede para se tornar a pessoa que sua amiga mais ama no mundo. O rapaz recebe exatamente o que pediu, mas rapidamente percebe que o preço de certos desejos pode ser muito mais sombrio do que imaginava.

É muito fácil simpatizar com o protagonista. Ele é aquele cara meio patético, inocente e bobão que normalmente associam a uma boa pessoa. Mas até onde essas “boas pessoas” podem ir para terem seus desejos saciados? Essa foi, para mim, a reflexão mais interessante proposta pelo filme.
Antes de entrar melhor nesse debate, vale destacar alguns aspectos técnicos. O desenho de som é excelente; muitos dos sustos e da sensação constante de desconforto surgem justamente do trabalho sonoro. A fotografia, que aposta bastante em jogos de sombra, também ajuda a construir esse clima de mistério. Afinal, essa pessoa apaixonada é realmente Nikki, ou apenas uma sombra dela? Essa dualidade se fortalece porque o filme constantemente a enquadra em meio à escuridão. É uma obra que aparenta ter um orçamento muito maior do que realmente possui, algo refletido na direção de arte, no trabalho de maquiagem e em diversos outros detalhes técnicos.

O elenco é um charme. Michael Johnston, como Bear, entrega toda a aparente inocência do personagem, mas principalmente seu desespero, com bastante veracidade. Ainda assim, o grande destaque é Inde Navarrette. A jovem atriz americana faz essa Nikki obcecada pelo amigo crescer constantemente em intensidade, elevando o nível da atuação cena após cena. Uma performance magnética. Vale os destaques positivos também para Cooper Tomlinson e Megan Lawless, que fazem os amigos dos protagonistas.
Agora retomando a questão da reflexão que o filme me trouxe: Existe algo muito perturbador na forma como Obsessão entende o amor. Pois não o entende e trabalha como um sentimento genuinamente altruísta, mas como posse, necessidade e até egoísmo. Bear acredita amar Nikki porque passou anos idealizando ela, desejando ela e colocando ela no centro da própria vida. Mas será que amar alguém significa desejar o bem do outro, ou apenas ser amado de volta?

O filme é inteligente justamente porque nunca transforma Bear em um monstro. Pelo contrário: ele é carente, inseguro, frustrado e extremamente humano. E talvez seja isso que mais assuste. A obsessão dele nasce de sentimentos reconhecíveis, quase banais. Quem nunca criou expectativas em cima de alguém? Quem nunca confundiu afeto com necessidade? O problema começa quando essa frustração deixa de ser interna e passa a exigir que o outro mude para preencher um vazio, mesmo que através de uma magia “acidental”.
E é aí que o filme se torna tão desconfortável. Porque o desejo de Bear não é conquistar Nikki, mas alterar a própria essência da relação entre eles. Ele não quer lidar com rejeição, amadurecer ou seguir em frente; ele quer reescrever os sentimentos dela, seu desejo é diretamente para mudá-la, não para que ele possa conquistá-la. Existe algo profundamente violento nisso, mesmo que mascarado por essa aparência inocente.
Também acho interessante como o filme brinca com a ideia de reciprocidade forçada. Muitas narrativas românticas venderam por décadas a persistência masculina como algo bonito: o homem que insiste, insiste e insiste até finalmente “ganhar” a garota. Obsessão parece pegar essa lógica fantasiosa e levá-la ao extremo horrível que ela sempre carregou escondido. Porque quando o amor deixa de ser escolha, sobra apenas controle.
Obsessão funciona muito porque entende que algumas das relações mais destrutivas não nascem do ódio, mas da incapacidade de aceitar que ninguém pertence a ninguém, de aceitar que alguns romances não são para serem vividos. Não é perfeito, pelo contrário, ele parece se enrolar demais durante os primeiros 40 minutos e aparentar ser mais um curta prolongado do que um bom longa, mas ao final de tudo, ele se justifica. E de quebra, trabalha melhor codependência do que o recente terror Juntos que tinha feito um sucesso interessante na época e acho fraquinho.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.