Demolidor: Renascido – “Tá mais pra Pé na Cova” – Crítica

AVISO: Spoilers, especialmente do episódio final.

A série original Netflix do Demolidor é uma das melhores de todos os tempos. Ponto. Como apreciador de “Transformers” até Andrei Tarkovsky, sinto-me incapaz de não dar todo o mérito possível a ela, especialmente às primeira e terceira temporadas (a única competição no subgênero super-heróico é “Watchmen” de Damon Lindelof). Havia drama humano palpável, foco em subtramas de pessoas fora desse mundo de capas e máscaras, em backstories, além de brilhantes e intensas sequências de ação prática sob uma estética única embasada nos quadrinhos, uma atmosfera de sujeira no contraste de luz e sombra

A reentrada naquele microcosmo da Marvel era, indubitavelmente, algo que atrairia atenção e interesse, afinal ele sempre foi tão vívido. A primeira temporada de “Renascido” não foi o retorno triunfal, por razões óbvias, mas entre todo o desfoque narrativo das reformulações, havia uma boa vontade, assim argumentando aos criativos “Vocês estão construindo algo para o futuro”. Bem, esse tempo chegou e… ainda estão construindo?

O cerne dessa segunda temporada de “Born Again” continua a mesma linha da anterior, Matt Murdock e seus aliados lutam contra o prefeito Wilson Fisk e sua Força Tarefa Anti-Vigilantes. É meio que só isso. Pode-se dizer que dá pra fazer muito com algo tão forte mas… no MCU, onde um soldado soviético da Guerra Fria, o assassino dos pais de Tony Stark, pôde criar uma carreira política e se tornar o líder dos Novos Vingadores, parece um tanto absurdo que tal Força Tarefa ganharia tração popular. O paralelo é evidente, Fisk é Trump, FTAV é ICE, porém existe somente na superfície da superfície. Qualquer pensamento mais profundo o castelo de areia se esfarela com tamanha falsa equivalência forçada. 

O que não ajuda é a perda de um norte onde guiar o Rei do Crime. Até hoje não consigo definir o que o personagem tinha a ganhar tornando-se prefeito de NY, e menos ainda como ele ganharia uma eleição com todos os fatos públicos decorridos na série clássica. Donald Trump tem características de um vilão de desenho animado, mas o alcance e influência de seu discurso, por mais acéfalo que seja, são ao menos críveis. Como Wilson Fisk orquestraria alianças políticas o suficiente para o cargo é tão inacreditável quanto qualquer motivação que tenha para se colocar nessa posição exposta. 

O Rei do Crime o qual cresci assistindo, no desenho do Homem-Aranha e o filme do Homem Sem Medo de 2003, era um chefão da máfia na surdina, mais distante desse incompreensível desejo por atenção e redenção aos olhos da cidade, ao continuar exercendo ações contraditórias a tais objetivos. A maioria dessas críticas beirariam a irrelevantes num mundo cartunesco, mas no desespero de seguir a abordagem da série antiga, a trama entra em conflito com o tom realista sombrio desejado. Ao menos Vincent D’Onofrio permanece brilhante no papel, apesar de cair em alguns impulsos “pelo meme” no roteiro. Sim, ele diz “Quando eu era garoto…” de novo.

Entrementes, Charlie Cox, igualmente, mantém-se perfeito na  liderança narrativa. Matt Murdock deu um 180 desde a primeira temporada, agora sendo O Demolidor por quase toda a série. No original da Netflix, como nas tradicionais histórias de herói, o drama da identidade secreta dominava, sendo uma excelente porta para drama pessoal. Perde-se o conflito (e como!), mas o anseio por dosar com a falta de ação fantasiada no ano anterior é compreensível, ainda mais com o personagem numa vida de fugitivo. Posso dizer, contudo, que seu arco anterior ao menos existia. Vê-lo abandonando a vida de vigilante (de novo) e a ascensão de Fisk (de novo), geraram um turbilhão interno forçando o Diabo a sair. Aqui ele solto e acabou, parte da trajetória envolve o elo com o Mercenário, brilhantemente interpretado por Wilson Bethel, contido nos episódios 4 e 5, os melhores da leva.

Neles havia um senso de perigo iminente e imprevisibilidade como nos velhos tempos, além da promessa da aliança dos nêmesis, e dali pra frente foi tudo por água abaixo, com o centro emocional promissor ficando no ar, sem uma catarse ou escolha difícil. O episódio final cria um momento potente, quando Matt revela-se publicamente como Demolidor para testemunhar contra Fisk, o que serviria como um excelente ponto final em sua jornada, só que tem um gancho para a terceira temporada e aí vem MAIS OUTRO herói do MCU sem identidade secreta. Estou cansado, chefe.

Portanto, o poder de tamanha decisão perde potência climática, por ser meramente uma ponte para outra história, um desserviço a um dos grandes personagens de toda a franquia. Além disso, a ideia de Matt Murdock indo para a cadeia por ser o Demolidor, e Wilson Fisk, tendo seus crimes expostos novamente, somando sua matança pessoal de diversos nova iorquinos a sangue frio de forma pública, acabar numa ilha paradisíaca isolada como resultado do sistema de justiça, é inconcebível. Uma conclusão onde ambos terminam como companheiros de cela traria uma boa dose de humor negro, mas como digo a tempos, quando o assunto é MCU, quanto pior a ideia, mais provável que seja realizada.

O elemento principal a corromper “Born Again”, sendo o grande diferencial comparado ao que veio antes, além de fotografia, atmosfera, é o elenco coadjuvante. Enquanto antes eram eles quem faziam Hell’s Kitchen pular da tela, aqui esquece-se que a história sequer se passa lá, não existe um mínimo aprofundamento da relação dos personagens com o bairro. É como fazer Batman sem Gotham City. Somos obrigados a assistir “avatares substitutos” de personagens amados, e por um bom tempo parecia que foram deliberadamente excluídos, mantidos apenas por obrigação contratual. Cherry, o aliado na polícia, some no início e retorna apenas na reta final (ótimo, não fez falta); Kirsten, sócia de Matt na vida de advogado, preenche tela no decorrer da história, mas não existe uma característica verossímil a defini-la, tirando talvez ser uma advogada incompetente, a saída usada no roteiro para fazer Matt parecer um muito bom; também temos aqueles que não lembro o nome, não pesquisarei por pura revolta, eu os chamo de Falso Wesley e Tiny Soprano. Chamar seus papéis de filler é ofensa aos fillers. Tentativas de fazer suas cenas culminarem num pico emocional são falhas, beirando ao risível. 

Mas o pior fica pro final, essa eu lembro. A Dra. Heather Glenn, interpretada por Margarita Leviava, aproximando Halle Berry em “Mulher-Gato” de Daniel Day-Lewis em “Sangue Negro”, é a definição de pastel de vento. Uma personagem irritante em cada cena presente, rasa, aproximando-se de estereótipos machistas da “ex-namorada maluca vingativa”. Sua trajetória foi idealizada para levar a sua transformação em Muse, assumindo o manto de seu trama passado, porém a virada é súbita e sem sentido. Do absoluto nada a psiquiatra já mete socos como uma profissional em autodefesa, seus impulsos violentos surgem sem construção, afinal ela sumiu por diversos episódios, e seu desprezo por vigilantes torna sua queda ao abismo ainda mais inacreditável (o Muse ser tratado como um vigilante e não um serial killer vai além da lógica básica).

As poucas ressalvas deste elenco são, em maioria, adivinhou, aqueles da série antiga, mas por pouco. Karen Page é uma grande querida, o coração da série original, mas aqui ela age fora de sua índole drasticamente, com seu desejo assassino pelo Mercenário conflitando com suas lições de moral a Matt na terceira temporada, onde sua trágica história é revelada, e não… ela jamais cairia em tal anseio. 

Jessica Jones, uma favorita de minha parte, mantém sua essência, mesmo tendo porcaria nenhuma a realizar nesta história. Torna-se gritante que ela existe aqui para preencher o vácuo do Justiceiro, um personagem pertencente ao arco, mas, por conflitos de agenda, removido. Krysten Ritter poderia dialogar com uma parede e ser assistível, mas não há significado em sua volta. Por último, a única adição da nova era que funciona, BB Urich é a comentarista política do século, e o mundo real seria melhor com alguém como ela. Nada mais precisa ser dito. Alguns podem esperar Matthew Lillard nesse parágrafo, mas… parece que foi tudo um delírio coletivo. Se eu precisei pesquisar para saber o que o personagem fazia ali, e nenhum dos resultados transparecia em tela… que sublime falha em todos os aspectos criativos. Aqui torcendo para a DC de James Gunn usufruir melhor de seus talentos.

Sobre os trabalhos visuais e a linguagem apresentada, apesar de haver um foco criativo definido, a fotografia do ano anterior ao menos era mais memorável, e olha que já era fraco. Havia uma ênfase maior nos contrastes de luz e um mergulho na nova demonstração dos poderes de Matt, com snap zooms e mudanças de aspect ratio. Nesta segunda temporada existem pouquíssimos quadros, cenas, sequências dignas de destaque ou lembrança. Legitimamente esforço-me em encontrar algo e sou incapaz. Mais uma briga em plano-sequência… uau, ok. Talvez o que mais deveriam parar de fazer, pois todas as tentativas na era Disney+ foram porcas, afinal de nada adianta não cortar e esconder cortes se seus movimentos de câmera, enquadramento, iluminação, tratamento de cor, são todos aquém do esperado. É puro nostalgia bait. Fazíamos isso antes, faremos de novo, mas apenas o superficial. No episódio 5 a estética da era Netflix é recriada, gerando duas linhas de pensamento:

1 – Se pode fazer igual antes, por que não faz o tempo todo?

2 – Se são capazes de trazer uma estética palpável e atmosférica, mesmo que reciclada, por que não fazem o tempo todo?

Digo, não é só um filtro amarelo e preto, existe movimento de câmera em diálogos, o formato de tela original, close-ups, câmera na mão, algo planejado, criativo, feito para engrandecer a página. Por que você não faz isso o tempo todo?
Posterguei demais para escrever isso, pois dói ver algo antes tão significativo sendo corroído pelos problemas infindáveis do MCU, em sua contínua aposta nos mesmos erros esperando acertos, a um ponto que torna-se insuportável mencionar outra vez, pois todos sabemos o que há de errado com sua abordagem. Esta segunda temporada tem o benefício de não ser horrível, junto do apreço a seus personagens originais, e seus breves lampejos de poder, em geral restritos ao Episódio 4. Não importa o quanto coloque Radiohead para encapar a temporada, podia ser PJ Harvey, Björk ou The Cure, isso não esconde suas falhas, apenas as aumenta, pois arte legítima está atrelada a um projeto sem rumo, perpetuamente construindo para algo que nunca chega. Nenhuma palavra define “Demolidor: Renascido” melhor do que “cego”.

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