Nimrods: A Green Day Comedy, dirigido por Lee Kirk, parte de uma premissa muito simples: um grupo de jovens decide atravessar o país porque acredita que vai abrir o show de Réveillon do Green Day. E, às vezes, tudo o que precisamos é de uma ideia simples, bem executada e que saiba exatamente o que quer ser. É o que encontramos aqui. O filme abraça o besteirol e constrói sua graça justamente a partir da completa falta de noção dos personagens.

“Nimrod” é um termo utilizado nos Estados Unidos para se referir a alguém muito burro ou tolo, embora essa não seja a origem real da palavra, que originalmente está ligada à figura de um caçador. O grupo de jovens é, em geral, exatamente o que o título promete: um bando de idiotas. Mas o interessante é que o filme nunca parece olhar para eles com desprezo. Suas burradas são justamente o que faz com que a viagem funcione, e existe uma certa simpatia por esses personagens que estão tentando fazer alguma coisa, mesmo que estejam fazendo tudo da pior maneira possível.
O resultado é um road movie de besteirol com muito punk rock, em que a estrada funciona como o grande condutor para jogar esses personagens em situações cada vez mais absurdas. É legal como basta colocar os personagens dentro de um carro, deixá-los tomar decisões questionáveis e esperar o desastre. É uma fórmula bastante conhecida, mas executada com energia suficiente para não parecer apenas uma repetição de outros filmes do gênero.
E a música é uma parte fundamental disso. O Green Day não está ali apenas como uma referência para justificar a viagem, mas como parte da própria identidade do filme. O punk rock dá ritmo à história e ajuda a construir essa sensação de juventude inconsequente, de pegar a estrada sem saber muito bem onde aquilo vai terminar. Há uma energia muito específica nas músicas e na forma como elas são utilizadas, que combina perfeitamente com a proposta. É um filme sobre perseguir um sonho extremamente improvável, e não poderia haver trilha melhor para isso do que guitarras altas e adolescentes convencidos de que tudo vai dar certo.

A banda Analog Dogs, constantemente confundida com “Anal Dogs”, resume muito bem o humor do filme. Formada por Mason Thames, Kyler Coffman e Ryan Foust, ela é composta por personagens que poderiam facilmente cair no estereótipo do adolescente idiota, mas que ganham personalidade justamente pela dinâmica entre eles. Thames está muito bem no papel como o líder da banda, Coffman rouba a cena em diversos momentos sendo uma personagem completamente burra, mas com muito coração, e Foust completa o trio sendo o único capaz de pensar. O que funciona principalmente porque os três parecem estar sempre a um passo de tomar uma decisão completamente estúpida, cada um à sua maneira.
Também ajuda o fato de o filme não esquecer de construir relações entre esses personagens em meio ao caos. O breve romance entre McKenna Grace e Mason Thames funciona porque não tenta transformar a história em uma grande comédia romântica paralela. É algo pequeno dentro da viagem, mas suficiente para dar um pouco mais de humanidade ao protagonista e mostrar que, por trás de toda aquela idiotice, existe também aquela vontade bastante adolescente de viver alguma coisa especial. Além disso, o filme trabalha uma subtrama envolvendo luto com o personagem de Thames e seu irmão, interpretado por Keen Ruffalo. Em alguns momentos parece um comentário meio deslocado dentro de toda aquela comédia, mas também é justamente o que ajuda a tornar tudo mais humano.

O elenco ainda ganha algumas participações muito legais, especialmente para quem sente falta de The Office. Jenna Fischer e Angela Kinsey aparecem em papéis que aproveitam bem a presença das duas, sem transformar suas participações apenas em uma piscadela vazia para o público. São momentos que ajudam a deixar o filme ainda mais divertido e reforçam essa sensação de estar assistindo a uma comédia que não tem vergonha de ser completamente idiota. Vale destacar também as participações do próprio Green Day, Bobby Lee, Fred Armisen e Sean Gunn.
Nimrods exala uma vibe de anos 2000. Não necessariamente porque tenta reproduzir visualmente aquela década de maneira obsessiva, mas porque parece pertencer a uma época em que comédias adolescentes podiam simplesmente ser sobre um grupo de amigos fazendo besteira, pegando uma estrada e tentando chegar a algum lugar. Existe uma ingenuidade muito simpática nisso. Aqui, a proposta é muito direta: juntar jovens, música, estrada, romance e uma quantidade considerável de decisões ruins. E talvez seja justamente essa falta de pretensão que faça o filme funcionar tão bem.
No fim, Nimrods funciona justamente porque não tem vergonha de ser um besteirol com suas piadas mega idiotas. Ele sabe que sua história é absurda, apesar de simples, e que seus personagens são idiotas, mas nunca usa isso como desculpa para não dizer nada. Por trás de toda a confusão, existe uma história sobre perseguir aquilo que você acredita, mesmo quando ninguém ao seu redor parece levar seu sonho a sério. A viagem não serve apenas para levar esses personagens até um show do Green Day, mas para colocá-los diante das próprias frustrações, perdas e expectativas. Talvez eles não saibam exatamente o que estão fazendo, mas continuam indo. E é justamente aí que o filme encontra seu coração: às vezes, perseguir um sonho pode ser tão importante quanto alcançá-lo.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.