Só por uma noite (2026)- crítica- o fascismo e o amor

Só por uma Noite de Will Gluck (A Mentira, Todos Menos Você) parte de uma daquelas premissas que parecem tão absurdas que imediatamente dão vontade de descobrir o que um filme poderia fazer com elas. Em um futuro não tão longínquo, o sexo fora do casamento é proibido durante praticamente todo o ano e fiscalizado por uma espécie de implante criado pelo governo. Existe, porém, uma única exceção: durante uma janela de 12 horas, uma noite por ano, pessoas solteiras podem transar legalmente. É quase uma A Noite do Crime do sexo, só que trocando assassinatos por uma corrida desesperada por intimidade.

E neste mundo, conhecemos nossos dois protagonistas, Owen (Callum Turner) é um homem que parece ter tudo sempre bem definido, até sua namorada – interpretada por Maya Hawke– decidir que quer transar com outro na noite mais aguardada do ano. E Allie (Monica Barbaro) é uma mulher que busca viver o grande amor e criar conexões genuinas acima de só sexo.

A ideia é ótima porque transforma algo completamente cotidiano (apesar de ainda tabu) como o sexo em um evento quase apocalíptico. De repente, algo tão banal quanto marcar um encontro ganha a urgência de uma missão de sobrevivência. A cidade inteira se organiza em torno daquela noite, existe pressão para encontrar alguém, os produtos ligados ao sexo (especialmente camisinhas que são obrogatórias) viram objeto de disputa e até a possibilidade de simplesmente não querer participar parece estranha dentro daquela sociedade. O filme entende o potencial cômico dessa situação, mas não consegue explorar todas as possibilidades que ela abre, ou sequer de forma realmente satisfatória.

O curioso é que Só por uma Noite cria uma distopia extremamente autoritária e depois trata essa distopia como se fosse apenas uma excentricidade divertida. O chamado “Mandato” não é uma sugestão moral: o Estado literalmente decide quando você pode fazer sexo e usa tecnologia para fiscalizar o seu corpo. E talvez a parte mais perturbadora seja justamente o quanto isso é normalizado. A sociedade inteira se adaptou a essa lógica em pouquíssimo tempo, como se restringir uma das experiências mais íntimas de uma pessoa fosse apenas mais uma regra burocrática, existem algumas pequenas críticas a isso, mas é algo tão básico que é superficial como uma Kardashian.

Existe aí uma reflexão sobre fascismo que o filme chega perto de encontrar, mas nunca se desenvolve. O fascismo não precisa necessariamente dizer “você não pode desejar”. Ele pode dizer que o seu desejo precisa existir dentro de uma ordem determinada, autorizada e vigiada pelo estado. O problema deixa de ser apenas impedir o sexo e passa a ser decidir quais formas de intimidade são aceitáveis, o filme então apresenta uma sociedade em que o governo controla o corpo como mecanismo de controle social, mas quase nunca encara o peso assustador disso, chegam a mencionar o como é legal ser incel nesse mundo, mas isso nunca é realmente mostrado, são ideias que poderiam resultar em comentários muito interessantes mesmo em uma comédia romântica.

E isso fica ainda mais interessante porque o sistema aparentemente vende uma promessa de amor verdadeiro. Como o sexo casual é reprimido durante 364 dias do ano, aquela única noite se transforma em uma espécie de mercado romântico gigantesco. Todos estão procurando alguém, muitos querem encontrar uma conexão, e o filme parece sugerir que a escassez pode tornar os relacionamentos mais importantes. Só que essa é uma ideia perigosíssima. Uma sociedade autoritária pode criar artificialmente a sensação de que aquilo que ela proíbe durante quase todo o ano se torna mais especial quando finalmente é permitido.

É aí que Só por uma Noite encontra sua contradição mais curiosa: em certos momentos, parece que o filme está criticando o regime, mas em outros parece acreditar parcialmente nele. Afinal, Owen e Allie passam justamente a descobrir algo mais profundo quando se recusam a participar da lógica imediata daquela noite. A mensagem de que “esperar” pode tornar o amor mais verdadeiro é perfeitamente válida em uma comédia romântica, mas fica estranha quando essa espera não é uma escolha dos personagens e sim uma obrigação imposta pelo governo. Esperar porque você quer é romântico; esperar porque o Estado instalou um implante no seu corpo é outra história.

Também existe uma questão muito boa sobre casamento escondido nessa sociedade. Casados podem fazer sexo normalmente, enquanto os solteiros precisam esperar pela noite autorizada. Ou seja, o estado não está apenas regulando o sexo: está premiando um determinado modelo de relacionamento. O casamento deixa de ser somente uma escolha afetiva e passa a funcionar como uma espécie de autorização institucional para a intimidade. É uma estrutura bastante conservadora, e o filme poderia ser muito mais mordaz ao perceber que está transformando o matrimônio em uma espécie de licença estatal para o desejo.

Por isso, também acho que a falta de sexo pesa contra o filme. Não digo que precisava ser um filme erótico, mas existe algo quase engraçado em assistir a uma comédia sobre uma sociedade inteira obcecada por sexo que praticamente não quer mostrar sexo. Curiosamente, chegaram a gravar cenas de nudez que acabaram ficando fora do corte final.

A contradição fica ainda maior porque o próprio filme sabe vender o desejo visualmente. Toda a cidade está em contagem regressiva, os personagens falam o tempo inteiro sobre sexo, existe uma energia de urgência em torno dos encontros e a narrativa depende da atração entre duas (ou mais) pessoas. Mesmo assim, quando chega a hora de realmente colocar sensualidade na tela, Só por uma Noite recua. A classificação indicativa até inclui nudez breve e material sexual, mas é uma presença muito pequena para um filme cuja própria existência gira em torno dessa questão, praticamente inexistente.

E se tem alguém que consegue compensar um pouco dessa timidez é Monica Barbaro. Eu gosto muito da maneira como ela interpreta Allie porque existe nela uma energia mais espontânea, engraçada e até um pouco caótica que combina perfeitamente com o absurdo da situação. Barbaro também aproveita muito bem os momentos musicais, especialmente nas duas paródias que o filme reserva para Allie. São momentos que poderiam facilmente parecer só uma piada isolada, mas acabam sendo alguns dos trechos em que o filme realmente parece ter personalidade.

O problema é que Callum Turner é uma presença muito mais monótona. Não acho necessariamente que ele seja ruim, mas Owen parece funcionar em uma frequência muito menor do que Allie, e isso enfraquece bastante a relação central. sinto que exista uma falta de química entre os dois. Para mim, a questão é simples: Barbaro tem muito mais vida em cena. Quando os dois estão juntos, frequentemente parece que ela está tentando fazer a comédia acontecer e ele está apenas acompanhando.

Isso é uma pena porque o conceito tinha potencial para produzir uma comédia romântica realmente estranha. Em vez disso, Só por uma Noite acaba dividido entre três filmes diferentes: uma sátira distópica sobre controle do corpo, uma comédia sexual e uma história convencional sobre duas pessoas procurando amor. Ele consegue ser divertido em duas delas, mas raramente consegue ser realmente incisivo em qualquer um. A crítica ao conservadorismo, ao controle estatal e ao capitalismo aparece no horizonte, mas o roteiro parece ter medo de escolher um alvo e realmente atacar.

No fim, talvez a melhor coisa sobre o filme seja justamente a discussão que ele quase consegue ter. Porque a ideia mais interessante aqui não é “e se só pudéssemos fazer sexo uma vez por ano?”, mas “o que acontece quando um governo consegue convencer uma população de que controlar o desejo é uma forma de protegê-la?”. O verdadeiro perigo de um sistema fascista não está apenas em proibir alguma coisa, mas em fazer a própria população acreditar que a proibição existe para o seu bem. E um filme sobre isso poderia ser muito mais provocador do que Só por uma Noite se permite ser.

Ainda assim, há algo curiosamente adequado em um filme tão interessado em liberdade que parece incapaz de se libertar da própria estrutura de comédia romântica. Eu me diverti com a premissa, gostei muito de Monica Barbaro, ri com algumas das ideias mais absurdas e adoro seu pequeno lado musical (Will Gluck e suas playlists). Só queria que ele tivesse tido a mesma coragem da ideia que criou. Porque uma distopia em que o governo controla até quando você pode transar deveria ter muito mais a dizer sobre liberdade, desejo e poder do que apenas quem vai terminar a noite com quem.

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