Pressão, parte de uma situação de enorme tensão: o filme se passa 72 horas antes do Dia D, enquanto o general Dwight Eisenhower (Brendan Fraser) precisa tomar uma das decisões mais importantes da Segunda Guerra Mundial. Porém não é um filme focado na ação, mas em acompanhar o momento anterior, quando tudo ainda poderia dar errado. Mais especificamente, ele se concentra na relação entre Eisenhower e o capitão meteorologista James Stagg (Andrew Scott), o homem responsável por prever as condições climáticas que poderiam determinar o sucesso ou o fracasso da operação.

E é justamente nessa relação que Pressão encontra sua melhor qualidade. Eisenhower é o homem que precisa decidir quando milhares de soldados irão para a guerra, enquanto Stagg é aquele que precisa lhe dizer se o clima permitirá que isso aconteça. Existe uma tensão interessante entre os dois porque não se trata simplesmente de uma relação entre superior e subordinado. Eisenhower depende das informações de Stagg, mas Stagg também sabe que qualquer previsão errada pode ter consequências enormes. O filme consegue construir esse vínculo de maneira bastante natural, mostrando aos poucos uma relação baseada em confiança, mas também em uma responsabilidade que nenhum dos dois pode dividir com outra pessoa (apesar de existirem diversos outros no caminho), tudo graças a boa química em tela dos dois atores.
A escolha de transformar uma previsão meteorológica em uma questão de vida ou morte é interessante, pois ninguém tem controle sobre o tempo. O inimigo está lá, a invasão está planejada e os soldados estão esperando, mas é o clima que pode fazer tudo desmoronar. Por isso, mesmo sabendo exatamente o que aconteceu historicamente, existe uma tensão genuína nas decisões. O filme consegue fazer com que uma conversa sobre vento, chuva e nuvens pareça tão importante quanto uma batalha, porque naquele momento ela realmente era.
A montagem ajuda bastante nisso. Pressão tem uma montagem nervosa, que parece estar sempre correndo contra o relógio junto com seus personagens. As informações chegam, são analisadas, revistas e novamente questionadas, criando uma sensação constante de que existe pouco tempo para tomar uma decisão definitiva. É uma escolha que poderia facilmente deixar o filme cansativo, mas funciona porque combina com a própria estrutura da história. São 72 horas de espera, e o filme faz questão de nos colocar dentro dessa ansiedade.

Kerry Condon fazendo Kay Summersby também é uma presença muito boa. Sua participação ajuda a dar mais humanidade a uma história que poderia ficar excessivamente presa aos homens e às decisões militares, e ela consegue aproveitar bem os momentos que recebe. Não é necessariamente uma atuação que transforma o filme, mas é uma daquelas participações que fazem diferença e ajudam a equilibrar a narrativa.
No geral, Pressão é um bom filme. E talvez “bom” seja justamente a palavra mais adequada para ele, porque existe algo muito correto em praticamente tudo que ele faz. A montagem funciona, toda a parte técnica é admirável, as atuações são competentes e a tensão é bem construída. É difícil apontar grandes problemas técnicos ou narrativos, mas também é difícil sair do filme com a sensação de que acabamos de assistir a algo realmente inesquecível.
Isso acontece porque Pressão parece muito confortável dentro da própria estrutura. Ele encontra uma situação histórica extremamente complexa e transforma aquilo em um suspense bastante eficiente. A dúvida de Eisenhower e Stagg é interessante, mas o filme poderia explorar mais profundamente o peso moral daquela decisão, principalmente porque estamos falando de uma operação que resultaria em milhares de mortes. Existe uma contradição muito forte entre a necessidade de vencer uma guerra e o preço humano necessário para isso, e Pressão chega perto dela, mas nem sempre parece disposto a permanecer nesse desconforto, algo que Oppenheimer de Christopher Nolan consegue fazer melhor.

Isso fica ainda mais evidente no final. Depois de passar boa parte da duração construindo a sensação de que uma decisão errada poderia transformar tudo em uma catástrofe, o filme termina com uma sensação quase reconfortante de que as coisas deram certo. É curioso que um filme construído sobre a dúvida termine tão certo de que tudo deu certo. O sucesso do Dia D é obviamente parte da história, mas transformar esse resultado em uma espécie de conclusão tranquilizadora acaba diminuindo um pouco o peso de tudo aquilo que o próprio filme havia construído.
Ainda assim, Pressão funciona. É um filme tenso, bem dirigido por Anthony Maras e com uma premissa muito interessante, que consegue encontrar drama em uma situação que poderia parecer pouco cinematográfica. Talvez seu maior problema seja justamente não querer arriscar tanto quanto a história permitiria. É correto em quase todos os sentidos, mas poderia ser muito mais incômodo, complexo e marcante. No fim, é um bom filme sobre um momento gigantesco da história, mas que parece terminar antes de realmente encarar o tamanho daquilo que acabou de contar.

Formado em gestão de turismo & cinema, Jojo (João) é um dos criadores da Toca Cinéfila, e seu filme favorito é “Labirinto do Fauno”.