Muito Prazer (2026) crítica

O cinema de Jorge Furtado existe naquele curioso vácuo entre o bem valorizado e o ofuscado. Enquanto “Ilha das Flores” é um clássico curta, essencial, exibido em escolas e faculdades, boa parte de seus outros projetos parecem perdidos no imaginário nacional popular, onde Meirelles, Salles, Mendonça e Rocha têm uma substancial dominância. Mais recentemente, “Saneamento Básico” pode quebrar a bolha e ser redescoberto por uma nova geração, após o sucesso internacional de seus dois astros Fernanda Torres e Wagner Moura, e aqui em “Muito Prazer” há muito do que fez daquele filme icônico, e do que passou a definir meu entendimento momentâneo da lente criativa de Furtado.

A narrativa segue Rubem (Daniel de Oliveira), herdeiro do Motel Pérola, e Grace (Luísa Arraes), a única funcionária restante, que tentam trazer os dias de glória do imóvel de volta, repaginando o local por completo. Como a grana é curta, eles encontram uma solução que “não prejudica ninguém”: colocam câmeras escondidas nos quartos e lançam na internet os vídeos eróticos dos casais que ali frequentam, sem consentimento mas sem mostrar o rosto. O que temos aqui é um cenário tradicional de Furtado, os protagonistas desajustados, trabalhadores, quebrados de dinheiro, lutando por uma vida mínima no cenário capitalista, burlando algumas regras, sem nunca nos voltarmos contra eles. Andando a linha tênue de ser um filme de crime, sem tornar seus personagens irredimíveis, similar a “O Homem que Copiava”.

Assim como assistir a longas de M. Night Shyamalan ou Brian De Palma, existe um certo tempo até um senso de imersão, devido a estilização das performances. A leitura e tradução do roteiro envolve uma forma de atuação pouco natural, que pode afugentar no início, com constante foco em Oliveira e Arraes, mas gradativamente molda-se a algo orgânico dentro da mise-en-scene. Descolados do meio, soa superficial, mas uma vez “na zona” tudo faz sentido, esquece-se a descrença, com ambos os protagonistas exalando carisma, como nos (agora) velhos tempos do cinema nacional popular. Daniel de Oliveira por diversos momentos parece canalizar uma inspiração em Selton Mello, tanto em seus trejeitos quanto tom de voz, enquanto Luísa Arraes, o ás na manga da película, honestamente, nunca a vi tão bem no que pude contemplar de sua carreira. Cativante, o coração da obra, e aqui pode ser só comigo, mas é, eu entendo a Grace.

No elenco principal conta-se ainda com Samantha Jones, no papel de Nalva, a profissional técnica que ajuda na venda e instalação de câmeras, e as eventuais aventuras pelo mundo (erótico) do audiovisual na narrativa. Ela eu nunca vi, falha minha pois Jones tem uma filmografia televisiva bem interessante, de qualquer modo fica fácil reconhecer o talento da atriz, assim como torcer por seu sucesso e muitos mais papéis em filmes de destaque. Seu lugar na trama é um que pode-se espelhar com Lázaro Ramos em “Saneamento Básico”. Enquanto este tem uma certa malandragem e safadeza do “jeitinho brasileiro”, a Nalva de Jones é mais carregada de uma ocasional secura quase robótica, como alguém que não queria estar lá mas que deixou-se cativar, assim como nós, pela empolgação de Rubem e Grace por essa jornada.

Quanto aos méritos de Jorge Furtado, pode-se reconhecer menos energia comparado a alguns de seus clássicos, mas também um pouco mais de maturidade em relação ao tom, de acordo com a trajetória dos autores cinematográficos em seus esforços de late-stage. O trabalho visual não é particularmente espetacular, mas efetivo, essencialmente minimalista, muito de acordo com o que é pedido pela natureza do roteiro. Este é um filme para o elenco brilhar, então o ritmo da edição passa a ser o elemento mais importante do longa, caminhando por trás das cortinas sem nunca chamar atenção para si mesma, apenas mantendo a ilusão. Parece existir uma sátira boomer sobre “a internet das coisas”, com uma cena inteira dedicada a falar como IAs são idiotas, debates descontraídos sobre algoritmo, monetização e número de visualizações, e uma listagem infinita de redes sociais de divulgação do Motel Pérola, do Instagram e Twitter até Pinterest e Reddit. Em mais um exemplo de equilíbrio cênico de Furtado, há o suficiente de modernidades digitais, sem jamais alienar um leigo, assim como não contém uma enxurrada de termos juvenis que tornariam a experiência datada dentro de alguns anos. O cerne da narrativa é tão universal quanto diversos de seus outros filmes.

Nada mais é do que um conto sobre desabrochar, no âmbito pessoal, romântico, e profissional. Onde antes havia pessoas perdidas, falidas, sozinhas, sem grandes esperanças, juntas elas caminharam rumo a seus sucessos. Entre tropeços, soluços, erros e acertos, o mundo que antes elas conheciam, que parecia tão fixo e imutável, foi moldado por suas ações, entre sorrisos e bom humor, e um pouco de safadeza. Claro, uma e outra subtrama acabaram subdesenvolvidas e mal concluídas, e ter mais tempo com nosso trio protagonista apenas existindo em conjunto, deslocados da trama, seria muito bem-vindo, um respiro do frenesi, mas de verdade, que filme gostoso de assistir. Incrivelmente digno de seu título.

P.S.: Devo trazer atenção e encorajá-los, assim como a mim mesmo, a assistir o outro “Muito Prazer”, de 1979. Os dois não tem relação alguma, mas aquele é clássico, o filme mais carioca de todos os tempos. “São quatro horas da tarde de uma quarta-feira. Semana praticamente encerrada”.

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