Hope- O Primeiro Impacto (2026) Crítica- Ousado e Muito Divertido

Em suas 2h40 de duração, Na Hong-jin encontra diferentes maneiras de manter nossa curiosidade, expandindo uma narrativa que começa como um suspense de ação relativamente convencional e gradualmente assume proporções muito maiores. É uma produção bastante ambiciosa, sem medo de abraçar o absurdo e experimentar diferentes possibilidades dentro do cinema de gênero. Gosto especialmente de como o filme consegue alternar entre momentos de tensão, humor e ação de uma forma tão espontânea. Existe uma liberdade criativa muito particular aqui, e boa parte da diversão está justamente em nunca saber muito bem para onde o diretor pretende nos levar.

A trama acompanha os acontecimentos em Hope Harbor, um pequeno vilarejo sul-coreano próximo à fronteira com a Coreia do Norte. Quando o cadáver de um animal aparece com marcas de ataques incomuns, o chefe de polícia Bum-seok (Hwang Jung-min) começa a investigar o caso ao lado da policial Sung-ae (Hoyeon de Round 6), enquanto seu primo Sung-ki (Jo In-sung) reúne um grupo de caçadores para procurar a possível criatura responsável pelos ataques. O que inicialmente parece ser uma investigação sobre um suposto animal selvagem rapidamente se transforma em uma situação muito maior, colocando os moradores diante de uma ameaça que ultrapassa completamente aquilo que conhecem.

Uma das minhas coisas favoritas de Hope está justamente na construção do suspense durante o primeiro ato. Existe uma influência bastante perceptível de Tubarão, de Steven Spielberg, na maneira como Na Hong-jin trabalha a presença da criatura antes de efetivamente mostrá-la. Durante um bom tempo, sabemos que existe alguma coisa à espreita, mas só conseguimos compreender sua dimensão através dos rastros que deixa, dos estragos que provoca e das reações daqueles que tiveram contato com ela. O perigo está sempre próximo, embora permaneça fora do nosso campo de visão, e isso faz com que qualquer barulho ou movimentação adquira uma importância muito maior. É impressionante como o diretor consegue sustentar essa expectativa sem que a ausência da criatura se torne frustrante. Gosto também de como essa escolha demonstra uma compreensão bastante interessante do que torna uma ameaça assustadora, afinal, não precisa mostrar para intimidar.

Quando o filme finalmente começa a revelar suas cartas, também fica evidente o quanto o diretor está interessado em trabalhar com a escala. As cenas de ação são absurdas, tanto pela dimensão dos acontecimentos quanto pela maneira como são encenadas. O diretor possui um domínio impressionante da movimentação de câmera e da organização espacial, construindo perseguições e confrontos que conseguem gerar toda a ansiedade necessária para as cenas. 

E existe uma diferença interessante entre as duas grandes sequências de ação que estruturam boa parte da experiência. A primeira trabalha muito bem o caos dentro do vilarejo, enquanto a segunda amplia consideravelmente a escala dos acontecimentos, mesmo culminando em um momento meio Subway Surfers de tirar o fôlego, levando os personagens para situações ainda mais extremas. São momentos longos, elaborados e cheios de acontecimentos, mas que raramente deixam de ser envolventes. Também gosto de como o filme não depende exclusivamente de efeitos visuais, que realmente não são nenhum primor, mas não me incomodaram, para construir seu espetáculo, aproveitando a movimentação dos veículos, os ambientes e a própria geografia dos espaços.

Entre essas duas grandes sequências, existe uma mudança bastante curiosa no ritmo. Já que ao invés de simplesmente emendar um confronto no outro, o filme utiliza esse intervalo para ampliar a mitologia daquele universo, apresentar novas informações sobre as criaturas e começar a transformar a percepção que temos do conflito. É uma escolha interessante porque, até então, estávamos muito concentrados na sobrevivência dos personagens e naquilo que parecia ser uma ameaça essencialmente monstruosa. Aos poucos, o roteiro sugere que existe muito mais acontecendo do que imaginávamos. E é nesse mesmo intervalo que encontramos uma das cenas mais curiosas, na qual um personagem passa um bom tempo contando detalhes de seu encontro com as criaturas enquanto fala sobre seus problemas intestinais. É difícil explicar a graça de uma conversa sobre diarreia dentro de um filme com essas proporções, mas funcionou bem comigo. Acho especialmente engraçado como o diretor consegue colocar uma sequência de ação gigantesca de um lado e uma conversa absolutamente escatológica do outro, sem demonstrar qualquer constrangimento com essa combinação. É um humor muito particular, que ajuda a tornar o filme ainda mais imprevisível.

Outro aspecto interessante é a escolha de atores conhecidos para interpretar algumas das criaturas através de captura de movimento. Michael Fassbender, Alicia Vikander e Taylor Russell participam dessa construção, emprestando seus movimentos e interpretações a personagens que estão longe da aparência humana. Gosto da decisão de utilizar atores com tanta experiência para essas figuras, especialmente porque existe uma intenção de construir uma mitologia própria para elas, em vez de tratá-las apenas como monstros que precisam ser derrotados. É uma escolha que combina com a ambição do projeto e com o interesse de Na Hong-jin em explorar as possibilidades daquele universo. Nem todos os resultados visuais são igualmente convincentes, mas considero a proposta bastante interessante.

O elenco humano também é um dos pontos altos, principalmente Hoyeon, que está excelente como Sung-ae. A personagem tem uma presença muito forte e consegue se destacar tanto nos momentos de ação quanto nas situações mais engraçadas, sem perder a naturalidade. Hwang Jung-min também funciona muito bem como o chefe de polícia, especialmente por conseguir transmitir o desespero de alguém que tenta manter algum controle sobre uma situação que cresce muito além de suas capacidades, e ele é bem engraçado. Jo In-sung completa esse núcleo com uma presença bastante diferente, contribuindo para a dinâmica entre os personagens e para os momentos mais caóticos da narrativa.

Vale destacar também como a proximidade de Hope Harbor com a fronteira entre as duas Coreias faz com que exista uma desconfiança constante em relação a possíveis infiltrados e ameaças externas. Os moradores já convivem com uma espécie de paranoia coletiva, sempre imaginando que o perigo pode vir de alguém que não pertence àquela comunidade. Quando uma ameaça verdadeiramente desconhecida aparece, essa percepção muda. Existe uma discussão interessante sobre a dificuldade humana de lidar com aquilo que não compreendemos e sobre como a ideia de um inimigo pode ser construída a partir do medo e da incapacidade de reconhecer o outro.

Mas se existe algo que impede o filme de alcançar um resultado ainda melhor, é justamente a dificuldade de administrar todas as suas ambições. Algumas ideias parecem mais interessantes em sua apresentação do que no desenvolvimento, e determinadas escolhas visuais nem sempre conseguem acompanhar a grandiosidade daquilo que está sendo imaginado. Também sinto que a reta final deixa a desejar se comparado ao restante do filme, ainda assim, são questões que considero relativamente pequenas diante do resultado geral. Hope: O Primeiro Impacto é uma produção que me conquistou muito pela maneira como se permite experimentar, construindo uma mistura de suspense, terror, ficção científica, ação e comédia que dificilmente poderia ser confundida com qualquer outra coisa. Na Hong-jin entrega cenas de ação impressionantes, trabalha muito bem a expectativa em torno de suas criaturas e encontra espaço até para alguns diálogos bizarros no meio. É imperfeito, mas extremamente divertido, inventivo e cheio de personalidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *