Toda série é sobre o relacionamento de dois personagens

Você já está pensando pelo título “Ah fala sério né filho da p***?! Esse metido a Sherlockinho do Cinema quer enaltecer o óbvio e me dizer que ‘Sherlock’ é sobre… pasmem… Sherlock Holmes & John Watson? UAU!” e você tem sua razão, afinal, duh doy! “Breaking Bad” é sobre o relacionamento de Walter White & Jesse Pinkman, “Better Call Saul” Kim Wexler & Jimmy McGill, “True Detective” o mesmo para Rust Chloe & Marty Hart, contudo esse padrão pode ser encontrado por toda a mídia televisiva com resultados ora surpreendentes, e a perda ou mal desenvolvimento deste cerne diversas vezes representa o sinal de fracasso de uma narrativa seriada. Quando você sente que uma série decaiu… pode ser por isso. O que há muito me atrai neste conceito é como algumas histórias e escolhas são ressignificadas, até perdoadas, por esta lente, gerando a resposta emocional almejada por qualquer criativo… exceto quando elas arruínam tudo.

Existem os casos evidentes deste elo duplo, como os já mencionados acima, mas elaborando em um específico: “Brooklyn Nine-Nine”. Um excelente exemplo de coração que não se perdeu. O primeiro episódio constrói a jornada que o finale concluiu depois de oito anos, o vínculo entre Jake Peralta & Raymond Holt. O detetive brincalhão irresponsável e o capitão austero no-nonsense, completos opostos ensinando o outro o que precisam aprender. Peralta ao final torna-se um pai que abandona a vida de policial, uma chave de sua característica, para cuidar do filho, quebrando o ciclo tóxico de sua família, enquanto o “robô” Holt (Meep Morp. Zeeeep) deixa-se levar por brincadeiras, aprende a sorrir mais, se envolver com seus colegas, soltar umas piadas, e mais importante, é o que salva seu casamento! Qualquer arco narrativo vai envolver um personagem aprendendo o necessário com outro através da jornada, sendo crucial em narrativas longas, afinal após anos e anos de histórias, fica fácil perder o rumo. O elo é a semente da árvore, e a catarse do arco, o fruto. Sem sol, água, atenção e cuidado, sua mudinha não cresce. Temos momentos em que é dado excesso de tudo isso, e a planta afoga.

Antes poderíamos ter um debate sobre “Demolidor” da Netflix, mas “Born Again” tirou qualquer chance disso, para o melhor e o pior. Quando antes haveria argumentos da narrativa ser sobre Matt, Foggy e Karen (ela em especial), o primeiro episódio do revival assassina (literalmente) tal ideia. “Demolidor” é sobre Matt Murdock & Wilson Fisk, dois garotos traumatizados, vinculados profundamente por seus códigos morais antagônicos em devoção a Hell’s Kitchen. O problema jaz quando a narrativa torna-se uma novela interminável, extraindo cada gota do fruto ao ponto que ele mal é reconhecível como um. Não há nada mais a ser dito ou elaborado, similar a um “Rick e Morty” e “Os Simpsons”, em arcos reciclados perpétuos destilando o significado antes presente, é desenvolvimento arrastado (piada que só cinco pessoas vão entender daqui dois parágrafos). Considerando os planos originais para a quarta e quinta temporada da série na Era Netflix, o coração era, de fato, o primeiro que mencionei, por essas e outras, o retorno no Disney+ é um fracasso. No entanto, a outra melhor série de super-heróis tem um coração revelatório.

“Watchmen” de Damon Lindelof pode, na superfície, devido a seu twist perto do fim, parecer tratar-se de Angela e seu marido, Cal Abar, mas na verdade, ele é uma ponte, que incita toda a trajetória unindo Angela Abar & Will Reeves, o avô dela, antes o Justiça Encapuzada, o enigmático primeiro vigilante deste mundo. A primeira cena da série é inteiramente sobre Will, assim como o gancho do episódio piloto, e ao final prova-se, sem dúvidas, como o relacionamento-chave da minissérie. Outro caso similar de “coração surpresa” está em “The Big Bang Theory”, pois ao início pode-se dizer que era sobre Leonard e Penny, e depois se transformando em Sheldon e Leonard, mas toda a história é Sheldon Cooper & Penny. O nerd mais irritante da ficção é um homem resistente a mudanças, uma de suas maiores falhas, a chegada de Penny sendo o grande gatilho para esse arco, enquanto ela antes era ingênua e crédula, evoluindo e desabrochando cada vez mais sua inteligência, pelo papel influente de seus novos amigos em sua vida. No series finale, quando as maiores transformações atropelam o caminho do cientista, é ela, com sua maturidade encontrada, quem o ensina que a maior constância da vida é a mudança em si. Eu fiz de tudo, eu encontrei significado em TBBT. Uau.

Toda a ideia deste artigo veio à mim, no chuveiro, num monótono dia nublado, relembrando minhas séries de comédia favoritas, e outras bem marcantes, afinal, eu e meus amigos somos uma espécie de “nerds de sitcoms”. Na melhor de todas elas, “Arrested Development” (as cinco pessoas entenderam agora), é feito explícito ser sobre Michael & George Michael Bluth, pai e filho, em meio ao caos que é a extensa família Bluth, e na filosófica “The Good Place”, Eleanor Shellstrop & Chidi Anagonye são o fator decisivo que torna todos os eventos da série possíveis, atingindo etapas estapafúrdias e irreais, fazendo desta âncora ainda mais importante. Na narrativa seriada de comédia, é ainda mais necessário esta base emocional para não se perder na desordem, especialmente em ensemble comedies. “Friends” é sobre quem? Só há uma resposta certa: Rachel Green & Ross Geller. As duas piores pessoas da Terra? Talvez, eles se merecem. Apesar de entre as quinta e sétima temporadas haver um protagonismo de Chandler e Monica, e ao final Joey sendo a base emocional dos arcos, o primeiro episódio da série é sobre Ross se divorciando, querendo voltar a ser casado, e DO NADA surge seu amor da adolescência vestida de noiva. Como é o último episódio? Sobre ambos finalmente ficando juntos. Estava tudo lá desde o início, jornada árdua e enjoativa, com certeza, mas catártica e honesta, mais do que possamos dizer sobre sua clone.

Eu prefiro no geral, por seus pontos altos, “How I Met Your Mother”, mas eita finalzinho amargo esse, resultado de todo o framing device da narrativa, construindo por nove anos a chegada da Mãe intitulada para jogá-la de escanteio na conclusão, mas não tem outra, HIMYM é sobre Ted Mosby & Robin Scherbatsky. O primeiro episódio trata-se de como os dois se conheceram, com a jornada levando a sentimentos conflituosos de Ted sobre Robin se casar com Barney, o melhor amigo dele, e apenas ao conhecer a Mãe que o protagonista supera essa emoção. Isso é… bem merda, na moral. Fazer a mulher morrer numa narração em off também não ajuda, mas é o que permite ao casal original ficarem juntos depois. Ted conseguiu a família que sempre quis e Robin jamais ofereceria, enquanto o casamento dela com Barney, naturalmente, fracassou. Almas gêmeas esperando pelo momento certo. Uma jornada honesta para os personagens, com certeza, mas para o público, o oposto de catarse, similar a uma facada nas costas. Agora um caso sutilmente similar a “Watchmen” no mundo da comédia.

Existe “The Office” sem Michael Scott? Esta é a pergunta. Certamente fizeram duas temporadas assim, e ele faz falta, mas a série nunca foi sobre Michael. Como Cal Abar, Michael Scott é a cola que une o relacionamento principal da série: Jim Halpert & Dwight Schrute. Pelas nove temporadas desfrutamos das pegadinhas de um contra o outro, a esperteza do primeiro contra a ingenuidade do segundo, que no início fomenta uma rivalidade que transforma-se em uma espécie de melhor amizade. Afinal, o cara que você vê todo dia no escritório e constantemente brinca, enche o saco, por uma década, deve ser de alguma forma valoroso, há raízes nesse elo por mais preenchido de animosidade que tenha se forjado. Quando um reclama do outro, a quem recorrem? Michael. Ele nada mais era do que um observador, portanto possível fazer a série sem ele, o arco jamais foi Scott fazer parte da família do escritório, mas sim criá-la. Seu breve retorno no episódio final apenas conclui essa ideia. Por sinal, há casos de personagens saindo da narrativa temporadas antes do fim, retornando apenas no último episódio, só que o problema é: o coração tinha sido arrancado.

Em “Arquivo X” é um caso de deixar qualquer um boquiaberto. Não existe um ser vivo capaz de definir o cerne como qualquer outro fora de Fox Mulder & Dana Scully. Por fatores que exigiriam mais de um parágrafo, David Duchovny não renovou o contrato para além da sétima temporada, mas o sucesso era tanto que fizeram duas temporadas extras de Scully e um outro cara. Não cheguei lá ainda mas… f#da-se tá ligado? Não existe Sherlock Holmes sem Dr. Watson e vice-versa. A explicação narrativa para a ausência de Mulder sem dúvidas é excelente, similar ao período da segunda temporada onde Scully desaparece, mas foram alguns episódios apenas, não anos. Mulder retorna no finale, trazendo à casa o coração ausente, assim como é o caso de “Smallville”. Nela há várias opções, poderia ser Clark e Lana, mas atinge-se um ponto que sua história de amor necessitava ser encerrada, para a jornada do protagonista se tornar o Superman; também há argumentos de Clark e Chloe, a melhor amiga dele presente por quase toda a série, mas não há muito drama neste elo, enquanto Clark Kent & Lex Luthor? É, é esse aqui. O primeiro episódio é sobre ambos se conhecendo, desenrolando uma trajetória de incontáveis altos e baixos, de irmandade a ciúmes e rivalidade romântica, e mesmo com Michael Rosenbaum sumindo por duas temporadas, o final é sobre seu retorno. O que redime este trabalho que não se reflete em “Arquivo X” é a expansão emocional oferecida, afinal há um elenco inteiro carregado por vínculos, enquanto a outra é exclusivamente focada na dupla, não existem coadjuvantes fixos, apenas recorrentes.

O último exemplo que darei deste caso é com “Parks and Recreation”, pois todo o chamariz, e o que mais me conquistou sobre ela desde seu primeiro minuto, trata-se do foco na amizade feminina: Leslie Knope & Ann Perkins. Assisti num período difícil, então acompanhá-las trouxe uma boa dose de conforto. No meio da sexta temporada, Rashida Jones, intérprete de Ann, deixou a série. Houve uma despedida emotiva e climática, uma bela jornada, e a série continua por mais um ano e meio. Na sétima temporada pode haver uma tentativa de recontextualizar a narrativa como sobre Leslie e Ron Swanson, afinal dois grandes amigos cheios de divergências passam metade daquele arco brigados, eventualmente fazendo as pazes num dos melhores episódios da série, mas é difícil colocar esta relação como o centro de toda a jornada. Ron era o ás na manga, o curinga, não uma âncora emocional. Assim como mencionado nos outros casos, Ann retorna no episódio final, comprovando-se, definitivamente, como metade desse todo.

Então fica a questão: sobre quem é “Game of Thrones”? Honestamente, eu não tenho ideia. Eles fazem de tudo no final para ser sobre Bran Stark??? Aham, tá bom. Poderia argumentar Daenerys Targaryen & Jon Snow mas… por quê? Exala como a lente menos promissora de observar o quadro todo, e certamente parece ser a optada, dois personagens em caminhos paralelos ao extremo com uma união broxante, parte de diversos dos núcleos menos interessantes da narrativa com atores medianos. Tornar este o cerne de GoT é reducionista, mas também verdadeiro, pois foi a escolha dos criativos, contribuindo com a conclusão que deixou demais a desejar. Poderíamos olhar “Seinfeld” de maneira similar, mas como uma série abertamente “sobre nada”, existe um certo perdão, talvez seja sobre Jerry Seinfeld & George Costanza, as primeira e última cenas de toda a série são ambos tendo a mesma conversa insignificante (como de costume), enquanto “Two and a Half Men”, por exemplo, que tinha um elo bem definido, foi abandonado por diversos conflitos, era Alan e Charlie, mas com a saída de Sheen, havia o potencial de ser Alan e Jake, mas Angus T. Jones também saiu, então… é sobre quem depois? Talvez o maior enigma seja “Westworld”, em grande parte por nenhum de nós ter conseguido terminar essa bomba, pois era hype e mystery box, para por aí. Que fique registrado, onde Jonathan Nolan falhou, “Os Feiticeiros de Waverly Place” e “Hannah Montana” foram bem sucedidos. Zero arrependimentos.

Consegui, porém, encontrar duas séries com excelentes trajetórias, começos, meios e fins, sem uma boa definição dessa dupla central. Para toda regra existem exceções, ainda mais no mundo da arte. “Todo Mundo Odeia o Chris” acaba por ser indefinível nessa linha pela série em si, e como diz o título, é ele sozinho contra todos, nenhum arco emotivo tanto do piloto quanto do finale envolve outro personagem específico, e por todas as temporadas cada membro do elenco tem o mesmo peso. Se quiser dizer Chris e Greg, talvez, mas ele é um tanto irrelevante para a conclusão. Passei a olhar como Chris & Julius, mas por um fator fora da tela. A série termina em 1987, e no ano seguinte, foi quando o pai de Chris Rock faleceu na vida real. Foi Julius quem manda Chris para a Escola Corleone, e sua chegada na última cena que carrega a informação crucial que viria a alterar a vida do protagonista. A segunda série que encontrei foi “It’s Always Sunny in Philadelphia”. Há uma parte de mim gritando que o Frank de Danny DeVito é metade desse coração, afinal, no dia que ele falecer, a série acaba. Dentre todos os membros do elenco, Charlie Kelly e Frank Reynolds têm a melhor amizade do grupo, com uma química humorística invejável, mas como ainda haverá mais temporadas, um coração surpresa pode nos atingir. Devo mencionar, porém, que meu episódio favorito deles, “A Very Sunny Christmas”, é bem focado em Charlie & Mac, e são os amigos de longa data da gangue do Paddy’s Pub, desde a infância. Se me colocassem na mesa de roteiristas pro último episódio, eu falaria algo sobre isso.

Encerrando pra te deixar em paz, um projeto de série de comédia com meus amigos, que não entrarei em detalhes demasiados por precaução, mas só este básico. A narrativa envolve uma dupla, Caco e Bono, que acaba se unindo a um grupo maior, liderado por Kátia. O protagonista é o Caco, e embora Bono seja idealizado como o engate para toda trama, ambos com um elo enraizado, sou incapaz de não enxergar a história toda através do elo entre Caco & Kátia, definidos como dois líderes muito opostos. Não há romance, e até a amizade é algo difícil pelas falhas que contém, mas é no outro que encontrarão a resolução de seus arcos. Digo isso pois todo o argumento deste texto é além de algo que enxerguei em minhas aventuras no mundo da arte, mas algo diretamente relacionado a como minha criatividade funciona.

Portanto, quando estiver analisando narrativas seriadas, desenvolvendo-as, ou quem sabe só querendo entender porque uma não funcionou, basta contemplar com suas emoções, onde está aquela âncora, o vínculo que deveria manter-te engajado. Sem isso nenhuma história funciona, sobretudo quando queremos um envolvimento longínquo.

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